ANÁLISE ERGONÔMICA DOS RISCOS OCUPACIONAIS NO SETOR CALÇADISTA DA CIDADE DE QUIXERAMOBIM/CE

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ANÁLISE ERGONÔMICA DOS RISCOS OCUPACIONAIS NO SETOR CALÇADISTA DA CIDADE DE QUIXERAMOBIM/CE

ERGONOMIC ANALYSIS OF OCCUPATIONAL RISKS IN THE QUIZERAMOBIM / CE CITY TRADING AREA

Aline Moreira Teixeira 1, Denilson de Queiroz Cerdeira 2, Ana Cristhina de Oliveira Brasil de Araújo 3, Geraldo Flamarion da Ponte Liberato Filho
1 Discente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Estácio do Ceará.

2 Fisioterapeuta, Orientador, Doutor em Biotecnologia (RENORBIO UECE). Docente do Centro Universitário Estácio do Ceará.

3 Fisioterapeuta, Co – orientadora, Mestre em Saúde Pública (UFC). Docente do Centro Universitário Estácio do Ceará.
4 Docente da Faculdade Inspirar. Fortaleza, Ceará, Brasil.

Como citar este artigo:
Teixeira, A M. Cerdeira, D Q. Araújo, A C O B. Sousa, P F M. Liberato Filho, G F P. ANÁLISE ERGONÔMICA DOS RISCOS OCUPACIONAIS NO SETOR CALÇADISTA DA CIDADE DE QUIXERAMOBIM/CE. Rev. Novafisio, Rio de Janeiro, v. 21, n. 101, p. 1-10, Abril. 2018.

RESUMO

Os acidentes de trabalho representam um importante problema de saúde pública, fazem parte desse grupo as Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e as Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT). Portanto, objetivou com esse estudo analisar ergonomicamente os riscos ocupacionais em trabalhadores de um setor calçadista na cidade de Quixeramobim/CE, verificando os segmentos corporais mais afetados e traçando recomendações de melhoria no posto de trabalho. Tratou-se de um estudo exploratório, descritivo e transversal com estratégia de coleta e análise de dados de forma quantitativa. O estudo foi realizado no setor de costura da Cocalqui com 15 funcionárias a partir da utilização do método Sue Rodgers e do censo de ergonomia. A pesquisa baseou-se na resolução 466/12 do CNS, referente à pesquisa com seres humanos, com parecer de aprovação 2.317.996 do Comitê de Ética da Estácio. Os resultados evidenciaram que a prevalência de distúrbios osteomusculares em costureiras era elevada, estando os sintomas: dor (53%), cansaço (47%), formigamento ou adormecimento (40%), relacionados com as DORT. pesquisa mostrou que nessa empresa há um risco elevado para DORT’s. Esses índices são suficientes para informar que existe uma patologia em curso em meio à categoria avaliada, revelando a necessidade urgente de orientar as práticas vigentes na Saúde do Trabalhador. Essa pesquisa possibilitou uma reflexão maior acerca do tema. Por isso, recomenda-se a realização de estudos longitudinais com objetivo de aprofundar o conhecimento sobre as formas de diagnóstico e tratamento das disfunções que acometem os funcionários da indústria calçadista.

Palavras Chaves: Doenças Profissionais; Ergonomia; Fisioterapia.

 

ABSTRACT

Work-related accidents represent a major public health problem, which include Repetitive Strain Injuries (RSI) and Work-Related Osteomuscular Diseases (DORS). Therefore, the purpose of this study was to analyze ergonomically the occupational hazards in workers of a footwear sector in the city of Quixeramobim / CE, verifying the most affected body segments and drawing recommendations for improvement in the workplace. This was an exploratory, descriptive and cross-sectional study with a quantitative data collection and analysis strategy. The study was carried out in the Cocalqui sewing sector with 15 female employees using the Sue Rodgers method and the ergonomics census. The research was based on Resolution 466/12 of the CNS, referring to research with human beings, with approval opinion 2,317,996 of the Ethics Committee of Estácio. The results showed that the prevalence of musculoskeletal disorders in seamstresses was high, with symptoms: pain (53%), tiredness (47%), tingling or numbness (40%) related to DORT. Research has shown that in this company there is a high risk for DORS. These indices are sufficient to inform that there is an ongoing pathology in the midst of the evaluated category, revealing the urgent need to guide current practices in Workers’ Health. This research made possible a greater reflection on the theme. Therefore, it is recommended to carry out longitudinal studies in order to deepen the knowledge about the forms of diagnosis and treatment of the dysfunctions that affect the employees of the footwear industry.

Key Words: Occupational Diseases; Ergonomics; Physiotherapy.

 

 

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento da indústria calçadista brasileira no cenário mundial se deu a partir dos anos 70, e hoje é o terceiro maior exportador de calçados do mundo. O impacto deste setor no Brasil se mostra pelo total de empregos diretos gerados, aproximando-se de mais de 330 mil postos de trabalho no ano de 2012 (COLAÇO et al., 2015).

No entanto, apesar da sua importância no cenário nacional e internacional, o desenvolvimento da indústria calçadista não acompanhou a evolução tecnológica das outras áreas e indústrias, com consequente incremento de tarefas simplificadas, com ciclos curtos (GUIMARÃES; RIBEIRO; RENNER, 2012), com o uso de força, com pouca diversificação e posturas inadequadas. A monotonia e repetitividade do trabalho decorrente da união de tais fatores não agregam valor e podem levar ao aparecimento de distúrbios musculoesqueléticos (GUIMARÃES, 2011).

Os acidentes de trabalho representam um importante problema de saúde pública, já que acarretam em custos previdenciários, dias de trabalho perdidos, prejuízo a renda familiar, além de ocasionar sofrimentos aos entes próximos (SCUSSIATO et al., 2013).

Historicamente, os acidentes de trabalho são representados por danos visíveis e, em decorrência, reconhecidos como provenientes do trabalho. Fazem parte desse grupo as Lesões por Esforço Repetitivo (LER), as Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (DORT) (LOURENÇO; BERTANI, 2009). Além disso, são hoje consideradas as principais causas de afastamento do trabalho e de aposentadorias precoces, causando impactos nas contas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) (LANCMAN; SZNENWAR, 2008).

A nomenclatura LER foi substituída por DORT, em 5 de agosto de 1998, através da Ordem de Serviço 606 dada pelo Ministério da Previdência e Assistência Social. O diagnóstico de LER pode ser dado independente do local onde foi adquirida, até em casa fazendo atividades domésticas. Entretanto, a DORT só pode ser diagnosticada, quando a lesão for adquirida por atividades relacionadas ao ambiente de trabalho (FRAGA et al., 2011).

Com isso, as empresas vêm buscando de diversas maneiras, medidas de prevenção que amenizem tais aspectos, considerando a crescente incidência registrada nos últimos anos (GALLIZA; GOETTEN, 2010).

A análise ergonômica é de suma importância dentro de uma empresa, pois gera benefícios na vida do empregado, melhora o desempenho da sua atividade profissional, garante um trabalho mais satisfatório, sensato e eficaz. Reduz o número de afastamentos e absenteísmo e principalmente, contribui para um ambiente mais seguro, para o caso de possíveis ações judiciais e previdenciárias contra a empresa. Por esse motivo, torna-se necessário estudar e aplicar a análise ergonômica neste setor calçadista, devido aos altos índices de DORT.

A relevância desse estudo está na possível contribuição com informações essenciais para a sociedade científica, trabalhadores e empresas, como estratégia para a implementação de uma cultura ergonômica no ambiente profissional.

O objetivo desse trabalho foi analisar ergonomicamente os riscos ocupacionais em trabalhadores de um setor calçadista na cidade de Quixeramobim/CE, onde verificou os segmentos corporais mais afetados e foi traçado recomendações de melhoria no posto de trabalho.

 

METODOLOGIA

Tratou-se de um estudo descritivo, exploratório e transversal, com abordagem quantitativa dos resultados apresentados, realizado no setor de costura da Cocalqui, na cidade de Quixeramobim/CE, mediante aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa (Número do Parecer: 2.317.996) do Centro Universitário Estácio do Ceará.

A amostra foi composta por todas as costureiras regularmente registradas na indústria (n=15). Foram incluídos no estudo trabalhadores que estivessem regularmente registrados na Indústria em estudo, independente de raça, estado civil, desde que aceitassem fazer parte da pesquisa.

As candidatas foram informadas sobre as características deste estudo e todas aceitaram participar do projeto voluntariamente mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O instrumento constava de duas partes, sendo a primeira uma análise ergonômica – SUE RODGERS. Que consistia em avaliar os esforços, em regiões distintas do corpo, previamente definidas, de acordo com o nível de esforço, tempo de esforço continuo, e esforço por minuto. A análise postural realizou-se de maneira sentada e postura bípede (COUTO, 2002).

E a segunda parte trata-se do Censo de Ergonomia, que tem como objetivo avaliar sintomas de DORT que indiquem necessidade de intervenção ergonômica para evitar a exacerbação dos mesmos e consequente afastamento dos funcionários (TABORDA et al, 2015)

O censo é uma ferramenta formulada à base de questionário podendo ser auxiliada por entrevista. Contém um mapa corporal dividido em pescoço, braços, coluna, quadril e pernas, no qual o funcionário aponta o local de maior desconforto e dor. O trabalhador expressa sua percepção a respeito do posto de trabalho e da atividade que executa, informando se sente ou não dificuldade ou fadiga, em que intensidade, se está relacionado ou não ao trabalho que executa, avaliando dessa forma, os riscos ocupacionais.

A análise e a interpretação dos dados estatísticos foram realizadas através do programa Excel 2013 e as informações coletadas foram confrontadas com a literatura vigente sobre a temática no âmbito nacional e internacional.

 

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Com bases na aplicação dos instrumentos de coleta de dados foi possível visualizar as características da população, que foram transportadas em tabela para a melhor análise dos dados que seguem abaixo.

 

Tabela 1.Distribuição dos dados de acordo com o questionário de coleta de dados. Quixeramobim-CE, 2017.

QUESTÕES Nº PARTICIPANTES (N=15) %
DESCONFORTO

PESCOÇO

OMBROS

BRAÇO

COLUNA

COTOVELOS

ANTEBRAÇOS

PUNHO

MÃOS

QUADRIL

COXAS

JOELHOS

PERNAS

TORNOZELO/PÉS

NÃO SENTE

REL. AO TRABALHO

SIM

NÃO

QUANT. TEMPO

1 MÊS

1 Á 3 MESES

3 Á 6 MESES

MAIS DE 6 MESES

TIPO DESCONFORTO

CANSAÇO

CHOQUES

ESTALOS

DOLORIMENTO

DOR

FORMIGAMENTO

PESO

PERDA FORÇA

LIMITAÇÃO MOV.

CLASSIF. DESCONFORT

MUITO FORTE/FORT

MODERADO

LEVE/MUITO LEVE

AUMENTO DESCONFORT

JORNADA NORMAL

HORAS EXTRAS

À NOITE

NÃO

MELHORA C/ REPOUSO

À NOITE

FINAIS DE SEMANA

REVEZAMENTO

FÉRIAS

NÃO MELHORA

MEDICAÇÃO

SIM

NÃO

ÀS VEZES

TRATAMENTO

SIM

NÃO

15

9

8

0

8

0

0

2

4

2

0

1

5

3

1

14

11

3

14

4

2

1

6

14

7

0

3

0

8

6

0

1

1

14

0

13

1

14

9

1

3

1

14

4

6

3

0

1

14

3

6

5

15

1

14

 

60%

53%

0%

53%

0%

0%

13%

27%

13%

0%

7%

33%

20%

7%

 

73%

20%

 

27%

13%

7%

40%

 

47%

0%

20%

0%

53%

40%

0%

7%

7%

 

0%

87%

7%

 

60%=

7%

20%

7%

 

27%

40%

20%

0%

7%

 

20%

40%

33%

 

7%

93%

 

 

Baseando-se no protocolo selecionado para o inquérito científico, os dados referente às ferramentas de análise “Método Sue Rodgers”, apresentou-se como RISCO ALTO para pescoço para as 07 (46,7%) costureiras que trabalhavam sentadas E quando aplicado o método para as costureiras que trabalhavam, em pé, verificou-se um RISCO ALTO em 53,4% (08 costureiras) para pescoço, ombro, e membros inferiores (MMII).

No questionário, onde perguntou-se ao trabalhador se o mesmo sentia algum desconforto nos membros superiores, coluna ou membros inferiores (Q1), foi observado que, 60% (n=9) apontaram sentir desconforto no pescoço, 53% (n=8) apontaram para coluna e ombro, 33% (n=5) pernas, 27% (n=4) mãos, 20% (n=3) tornozelos, 13% (n=2) punho e quadril e 7% (n=1) relatam joelho, e outros 7% (n=1) nenhum desconforto, fato que o faria se dirigir direto até a questão 9 do instrumento de coleta.

Ratifica-se, para fins de entendimento, que no instrumento, cada vez que o respondente optasse por nenhum desconforto, ele passaria a responder nas questões a diante, promovendo uma totalização diferente do número de amostra total (n=15), aqui designado como número de amostra válido (n válido).

Quando foi questionado para o colaborador se o que ele referia na questão anterior estaria relacionado ao trabalho no setor atual (Q2), observou-se (n válido=14) que 73% (n=11) dos trabalhadores relacionaram esse desconforto ao setor de costura, outros 20% (n=3) não relacionaram.

Quando indagada sobre o tempo desse desconforto (Q3), 27% (n=4) relataram que o desconforto está presente até 1 mês, 13% (n=2) de 1 a 3 meses, 7% (n=1) de 3 a 6 meses, 40% (n=1) acima de 6 meses (n válido = 14).

Ao analisar o tipo de desconforto gerado aos trabalhadores (Q4), foi possível evidenciar que, 53% (n=8) relataram dor, 47% (n=7) cansaço, 40% (n=6) formigamento ou adormecimento, 20% (n=3) estalos, 7% (n=1) assinalaram perda da força e limitação de movimento (n válido = 14).

Ao questionar-se sobre a classificação da intensidade do desconforto (Q5), 87% (n=13) apontaram como moderado e 7% (n=1) como leve (n válido = 14).

Na abordagem sobre o aumento do desconforto no decorrer da jornada de trabalho (Q6), foi evidenciado que, 60% (n=9) das costureiras tem o aumento do desconforto durante a jornada do trabalho, 20% (n=3) à noite, 7% (n=1) durante as horas extras, 7% (n=1) não associam o desconforto com o aumento da jornada (n válido = 14).

Seguindo a mesma temática, foi questionado se o desconforto apontado, melhorava com o repouso (Q7). Observou-se que, 40% (n=6) só melhoravam nos finais de semana, 27% (n=4) tinha uma melhora à noite após a sua jornada de trabalho, 20% (n=3) durante o revezamento em outras tarefas e 7% (n=1) não melhoravam (n válido = 14).

Na Q8 que tinha-se como questionamento “Você tem tomado remédio ou colocado emplastros ou compressas para poder trabalhar?”. Foi evidenciado que, 40% (n=6) assinalaram o item “não”, 20% (n=3) “sim”, e 33% (n=5) “às vezes” (n válido = 14).

Na última questão, foi indagado se a trabalhadora já havia feito tratamento médico alguma vez por algum distúrbio ou lesão em membros superiores, coluna ou membros inferiores (Q9), 93% (n=14) responderam que não, 7% (n=1) responderam que sim (n valido= 15).

Percebeu-se que, tanto as costureiras que trabalhavam em bipedestação quanto as costureiras que trabalhavam sentadas, ambas realizavam o movimento de flexão de cervical para fazer a costura. A altura da bancada era a mesma tanto para aquelas que trabalhavam em bipedestação quanto para as que trabalhavam sentadas, pois a indústria não realiza um estudo antropométrico para escolha destas, a cadeira não possui regulagem de altura e a costureira permanece em pé por longo período, ocasionando fadiga muscular.

 

DISCUSSÃO

A dor e o desconforto musculoesquelético fazem parte de diversos grupos de trabalhadores, destacando-se as costureiras. Tal fato pode ser explicado pelos fatores de risco presentes nas atividades com posturas inadequadas, realização de movimentos repetitivos, presença de sobrecarga estática ou dinâmica e com a inadequação do posto de trabalho, tudo isso está relacionada ao aparecimento das DORT. Neste estudo, destacou-se a alta prevalência de sintomas osteomusculares, visto que 93% das costureiras apresentaram queixas.

Nesse sentido, os resultados encontrados na avaliação postural, identificou que, as costureiras que trabalhavam sentadas e também na posição de bipedestação realizavam um maior movimento de flexão de cervical.

Quando aplicado o método SUE RODGES, para as 07 (46,7%) costureiras que trabalhavam sentadas, verificou um risco alto somente para pescoço. De acordo com os estudos de Szeto e Lam (2007), dores no pescoço, costas, joelhos e coxas são comuns entre trabalhadores que permanecem muito tempo na postura sentada. Esses resultados divergem dos achados de Pizyblski (2015), onde a região de maior queixa de dores foi a coluna lombar, seguida da região cervical na postura sentada.

Rumaquella et al. (2008) demonstraram que a posição sentada prolongada por muito tempo pode levar a adoção de uma má postura e consequentemente pode ocorrer fadiga dos músculos posteriores de suporte da coluna lombar.

Para Pizyblski (2015), a postura ideal para o ofício de costureiras é onde a coluna encontra-se apoiada no encosto da cadeira, as pernas estão perpendiculares ao chão e a cabeça está levemente inclinada para a máquina de costura. Os cotovelos estão apoiados no encosto para braços da cadeira, evitando de ficarem suspensos.

No método SUE RODGES para as 08 (53,4%) costureiras que trabalhavam em posição bípede, foi verificado risco alto para ombros, pescoço e membros inferiores. Almeida, Bachur, Quemelo (2010) relataram que a postura em pé por longos períodos de tempo não deve ser mantida, pois aumenta o risco de dores e lesões na coluna.

Husemann et al. (2010) constataram que, quando existe a variação de postura periodicamente, de sentado para em pé alguns benefícios são alcançados, como a redução de queixas físicas, diminuição da fadiga, aumento do gasto enérgico além de satisfação para com o trabalho.

No resultado do censo de ergonomia, observou-se que, os sintomas osteomusculares destacados predominaram nas seguintes regiões anatômicas: 53% pescoço e coluna vertebral e 60% em ombros. No estudo de Lourinho et al. (2011), avaliado com costureiras, 80% relataram desconforto, sendo que houve maior prevalência de desconforto nos membros superiores, coluna e membros inferiores.

Dos trabalhadores que afirmaram sentir algum tipo de desconforto, 73% acreditavam que esses sintomas estavam relacionados com o trabalho que desempenhavam na empresa. Corroborando com o estudo de Quemelo (2009) e Silva et al. (2014), onde dizia que os trabalhadores associam o desconforto relatado ao ambiente de trabalho.

Os desconfortos musculoesqueléticos citados pelas costureiras foram: 53% dor, 47% cansaço, 40% formigamento, 20% estalos, 7% limitação de movimento e perda da força.

Os estudos de Mergener et al. (2008) evidenciaram que esses são os principais sintomas resultantes das DORT. A presença desses sintomas em costureiras não determina o diagnóstico de DORT, mas alerta para a necessidade de investigação, pois essas trabalhadoras estão submetidas às condições de trabalho que favorecem a ocorrência desses distúrbios.

Constatou-se que a maior parte dos trabalhadores (27%) apresentava esses sintomas até 1 mês. Em relação à intensidade dos sintomas, observou-se que 87% das trabalhadoras as consideravam moderados; as demais consideravam leves. Da mesma forma que Silva (2011) encontrou em seu estudo. O Ministério da Saúde em 2001 afirmou que o início dos sintomas da LER/DORT é insidioso, de curta duração e de leve intensidade (SILVA et al., 2014).

60% das costureiras (9) relatavam que o desconforto aumentava durante o seu trabalho. Rezende et al. (2014) respalda essa questão em seu estudo com trabalhadores da construção civil.

Em uma das questões do questionário ao ser abordada quando a trabalhadora relatava um alívio do desconforto mencionado anteriormente, 40% das costureiras sentiam uma melhora nos finais de semana, seguido de 27% que diziam ter uma melhora a noite após o trabalho. No estudo de Silva et al. (2014) constatou que 86,4% dos trabalhadores apresentavam melhora dos sintomas por meio do repouso. Desses, 30,3% disseram que o período noturno, os finais de semana e as férias promoviam a melhoria dos sintomas. Para ele, isto está diretamente relacionado com a postura inadequada que é adotada durante a realização das atividades.

A maioria das costureiras não faziam uso de medicamentos ou outra terapia para alívio dos sintomas mencionados, e nunca havia procurado consulta médica. O que diverge do estudo de Silva (2011), onde a maioria dos trabalhadores já fez uso de alguma medicação, e a minoria havia realizado consulta médica em busca de tratamento para alívio dos sintomas decorrentes do trabalho.

Sobre as recomendações no posto de trabalho pode-se sugerir: regular a altura da máquina de acordo com os dados antropométricos do colaborador, rodizio de função, cadeiras para descanso e semi-sentada em locais em que possam ser utilizadas por todas as trabalhadoras durante as pausas, verificar a possibilidade de um assento com altura ajustável à estatura da trabalhadora, encosto com forma levemente adaptada ao corpo para proteção da região lombar, realizar treinamentos e orientações posturais e desenvolver procedimentos operacionais sobre inspeções e palestras ergonômicas.

Segundo a Ergonomics Section Finnish Institute of Occupational Health (2004), a melhoria das condições de trabalho requer a colaboração entre os projetistas, os especialistas em saúde ocupacional e os próprios trabalhadores. A aplicação mais ou menos superficial pelos projetistas de regras baseadas na sua intuição ou o controle das atividades pelos profissionais de saúde ocupacional são insuficientes para projetar tarefas e postos de trabalho seguros, saudáveis e produtivos. Por isso, a análise ergonômica dos postos de trabalho é uma ferramenta que permite obter uma avaliação real da situação de trabalho.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste estudo foi avaliado o setor de costura de uma indústria calçadista, onde verificou-se os riscos ocupacionais em que as trabalhadoras estavam expostas durante sua jornada de trabalho.

Urge destacar que neste trabalho, houveram algumas dificuldades e lacunas no instrumento usado no que diz respeito a quantas horas essas costureiras trabalhavam por dia, se exerciam alguma atividade extra após sua jornada na indústria e se, desde que iniciou nesse setor, sempre permaneceu trabalhando nessa postura e sobre quanto tempo estão nessa função.

A análise ergonômica dos riscos ocupacionais das trabalhadoras participantes mostrou que nessa empresa havia um risco elevado para DORT’s, já que 93% das costureiras possuíam algum desconforto osteomuscular, onde esses desconfortos já citados são os principais sintomas das DORT´S. Foi possível verificar que os segmentos corporais mais afetados foram: pescoço, ombro e coluna vertebral.

Esses índices foram suficientes para informar que existia uma patologia em curso em meio à categoria avaliada nesta pesquisa, sinalizando a necessidade de apontar formas de prevenção e de tratamento junto ao público alvo do inquérito científico.

Os resultados da pesquisa revelaram a necessidade urgente de orientar as práticas vigentes na Saúde do Trabalhador.  É importante que profissionais da saúde estejam trabalhando junto a essas funcionárias com o intuito de conscientizá-las sobre o que é a afecção laboral e alertá-las sobre os possíveis fatores de risco relacionados ao trabalho desenvolvido por elas, proporcionando uma qualidade de vida para as funcionárias participantes.

Essa pesquisa possibilitou uma reflexão maior acerca do tema. Por isso, recomenda-se a realização de estudos longitudinais com objetivo de aprofundar o conhecimento sobre as formas de diagnóstico e tratamento das disfunções que acometem as costureiras.

 

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