Acesso ao tratamento de artrite reumatoide ainda enfrenta obstáculos no Brasil

Nilma Rodrigues de Oliveira*

Gargalos em toda a cadeia de fornecimento, diagnóstico e tratamento têm elevado a resistência à adesão ao tratamento de artrite reumatoide no Brasil. De acordo com estudo sobre a prevalência das doenças reumáticas no país, publicado em 2004 pelo Community Oriented Program for Control of Rheumatic Diseases (COPCORD), da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de um milhão de brasileiros sofrem com a doença.

Embora atinja uma parcela menor da população se comparada a outras enfermidades mais conhecidas, a artrite reumatoide é uma doença inflamatória crônica que ataca principalmente as articulações de todo o corpo e pode se desenvolver em outros órgãos. Se não for tratada adequadamente, a doença pode impossibilitar uma vida regular e, em muitos casos, causar invalidez. Por isso a agilidade no acesso de pacientes a programas governamentais de tratamento é urgente. 

Uma das causas do problema de adesão no Brasil é a dificuldade de acesso às medicações, causada pela falta de alinhamento entre as secretarias estaduais de saúde para aprovação de terapias devido a diferentes interpretações do conteúdo dos protocolos de tratamento. Outro agente desmotivador que leva o paciente a abandonar os cuidados com a necessária regularidade é a dificuldade de deslocamento para se tratar e conseguir o medicamento adequado. Em ambos os casos o que se oberva é a dificuldade e consequente demora no atendimento destes pacientes.

No Estado de Minas Gerais, por exemplo, o problema do acesso ainda enfrenta obstáculos burocráticos que têm levado a uma demora de até 120 dias para conseguir o remédio, enquanto na maioria dos Estados brasileiros a média é de 30 dias. A Bahia é outra região que também enfrenta graves problemas, com a excessiva centralização do diagnóstico e dispensação de medicamentos restritos à cidade de Salvador. 

No Brasil, depois de muita luta, somente no meio do ano passado conquistamos a aprovação do novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) que estabelece critérios de diagnóstico e de tratamento da doença com as respectivas doses adequadas e os mecanismos para o monitoramento clínico. 

A chegada de novas gerações de medicamentos é uma notícia positiva para uma doença pouco valorizada quando se trata de políticas públicas ou de procedimentos de atendimento ambulatorial. Mas é necessário investir em conhecimento sobre a falha, substituição terapêutica e custos para obter melhores alternativas para o tratamento e qualidade de vida do paciente. Segundo levantamento realizado pela Associação da Indústria farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), os principais fatores que impedem o acesso a medicamentos no Brasil são os impostos mais altos do mundo para este tipo de produto e o pagamento de mais de 70% dos medicamentos pela população. 

Ter remédio é importante, mas para quem sofre com a artrite reumatoide agilidade é fundamental. Conforme o novo PCDT, o tratamento deve ser começado o mais rápido possível, pois o período inicial da doença, principalmente o primeiro ano, é o espaço de tempo em que uma intervenção farmacológica efetiva pode mudar o curso da doença. Além disso, o diagnóstico precoce é fundamental para instituir os cuidados adequados e pode ser fator determinante para manutenção de um estilo de vida normal e produtivo. Em alguns casos, a detecção tardia pode tornar o curso da doença irreversível.

Se conseguirmos promover esse atendimento com eficiência, além de oferecer uma qualidade de vida excepcional para o paciente, é possível economizar, pois o custo de manutenção do tratamento cairia com o diagnóstico e início rápido. Para isso, é fundamental disponibilizar uma grande variedade de opções de medicamentos, derrubar o custo e facilitar o processo de distribuição e acesso aos tratamentos mais modernos. 

Nilma Rodrigues de Oliveira, portadora de artrite reumatoide, é presidente da Associação Nacional de Grupos de Pacientes Reumáticos (ANAPAR) e da Associação dos Reumáticos de Uberlândia e Região (ARUR).

Se desejar, use os botões abaixo para compartilhar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.