Ação primária do fisioterapeuta, magistério, titulação.

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Além da reconhecida ação secundária e terciária do fisioterapeuta, a ação primária vem ganhando cada vez mais espaço no desempenho profissional, com a chamada fisioterapia preventiva. Esse termo nos dá a impressão errônea de que a fisioterapia preventiva somente atua em situações saudáveis de menor ou maior risco, como por exemplo, evitar quedas em idosos, portadores ou não de alguma situação patológica, acompanhamento gestacional, visando a gestante e também o bebê que pode evoluir com potenciais lesões cerebrais de acordo com a gestação e o parto a ser realizado, avaliação postural infantil com a proposta de inibir possíveis desvios futuros em maior ou menor grau. Esses são alguns exemplos clássicos, embora não aproveitados totalmente pelo fisioterapeuta ora por desconhecimento, ora por desinteresse em determinadas áreas de atuação.

Ao início da era globalizada e neo-liberal foi notória a fala de um economista norte-americano, o qual sentenciou que, no mundo de economia globalizada, emprego seria sinônimo de inovação,  propostas alternativas e relevantes que fizessem diferença.
Mais uma vez o fisioterapeuta desponta como um profissional capaz de se adequar e propor coisas novas dentro das várias frentes que a nossa legislação específica oferece, pois somos todos, aos olhos legais, fisioterapeutas clínicos por formação, podendo atuar e devendo atuar de forma generalista em todas as áreas cabíveis ao conhecimento e bom desempenho ético e respeitoso aos pacientes
e às instituições.
Onde estão essas propostas? Onde está o fisioterapeuta para ocupar um espaço que pertence a ele? Quantas inovações podemos realizar a partir do interesse científico associado à pesquisa. Quantos trabalhos de conclusão de curso, quando bem orientados, podem se transformar em trabalho de pesquisa e acesso ao mercado de trabalho.
Como orientador, tenho vários exemplos de alunos que trouxeram idéias novas, as quais poderiam se transformar em frente preventiva e curativa de trabalho. Porque não dar sequência a essas idéias brilhantes e factíveis? O que falta para o fisioterapeuta se lançar, propor, ousar e fazer valer a sua competência? Segundo um velho ditado, contra fatos não há argumentos; se o trabalho é bom, embasado, sério e de resultados positivos, não há profissional de qualquer outra categoria que possa tirar o mérito dessas conquistas.
Infelizmente, na prática, não é isso que ocorre. Durante a graduação o aluno não é estimulado a participar efetivamente da categoria profissional, não é estimulado a criar, passa pela formação básica sem comprometimento, salvo honrosas exceções.
Com o aumento excessivo da procura pelo curso de fisioterapia no final dos anos 90 e início da década de 2000, a grande proposta de conseguir um espaço no mercado de trabalho passou a ser ligada ao magistério – salários mais altos e possível estabilidade.
A partir daí, passamos a ver novos fisioterapeutas, inexperientes, sem bagagem, querendo exercer a docência como única saída.
Inicialmente, com poucas universidades disponibilizando o curso, a procura pela docência era relativamente pequena e os professores apresentavam um nível de qualidade proporcional melhor. Com a abertura de cursos sem critério e sem estrutura, com baixos investimentos em laboratórios e, visando essencialmente o lucro em função da ocasião propícia, o número de alunos explodiu no Brasil inteiro e na região sudeste, a qual respondia e responde por mais da metade dos alunos em formação.
O Ministério da Educação não impediu essa abertura desenfreada de escolas, como também não incentivou e/ou facilitou a abertura de escolas públicas de fisioterapia; pelo contrário, o curso na Universidade Federal da Bahia foi desativado.
O que se viu a partir da metade da década de 2000 foi lastimável. Os cursos edemaciados, o mercado não absorvendo o potencial real de profissionais – um estudo realizado pelo crefito-3 de São Paulo em 2000 caracterizava a necessidade de 150000 profissionais de fisioterapia no país para atender razoavelmente as necessidades da população; à época a categoria dispunha de aproximadamente
60000 profissionais no geral, ou seja, não significando que todos estavam no mercado ativo de trabalho e a necessidade de professores aumentou sobremaneira. A falta de critério para admissão permitia a entrada de “professores” sem a mínima condição de atuar como docentes; a qualidade dos cursos desabou, os alunos debandaram e o mercado continuou na mesma.
Para piorar esse quadro, o Ministério da Educação passou a priorizar a titulação em pós-graduações stricto sensu como maneira de avaliar os cursos; quanto mais mestres e doutores o curso possuir, maior é o grau potencial obtido na avaliação (outros pontos também são levados em consideração). A partir disso, muitos fisioterapeutas passaram a buscar essa formação em mestrados e doutorados que não possuem linha de pesquisa específica em fisioterapia em sua imensa maioria, obrigando os profissionais a buscarem áreas afins para se titularem e, logicamente, na maior parte não dando continuidade às pesquisas iniciadas.
O governo Lula priorizou os cursos de mestrado e doutorado, gerando uma verdadeira fábrica de certificados e muitos profissionais desqualificados, apesar de serem legalmente qualificados.
Muitas universidades estão diminuindo acentuadamente ou zerando a carga horária de professores mais antigos e sem a mesma titulação, admitindo professores jovens, titulados, inexperientes, com ganho menor em torno de 30%; é a tendência clara dos cursos particulares visando lucro com poucos gastos e qualidade de formação, questionável.
Faço aqui um contraponto a essa tendência desenfreada que vemos na fisioterapia. Um insistente academicismo sem estrutura científica para tal, levando os profissionais a buscarem titulação de forma precoce e com poucos resultados práticos.
É importante a pesquisa? É fundamental. É importante a titulação e a visão da evidência científica? Sem dúvida; mas isso é uma construção gradual, progressiva, voltada para a fisioterapia. Querer negar a assistência e priorizar o acadêmico é, neste momento, um erro. É importante frisar que todas as pesquisas saem e voltam para a assistência, pois a linha final de todo cientificismo é a melhora funcional no seu aspecto mais amplo dos nossos pacientes.
É necessário prudência e objetivos bem direcionados. Enquanto o profissional não estiver trabalhando em locais que permitam boa remuneração, com tempo para pesquisa, documentação, levantamento de dados, além da atuação terapêutica de qualidade de nada adiantará todo esse movimento. Quanto tempo demorou para o Direito alcançar o academicismo? A qualidade era questionável antes desse advento? Não, e quem respondia pelo ensino? Juízes, desembargadores, promotores, advogados experientes. O que fazia a diferença? A experiência prática.
Em relação à fisioterapia, defendo radicalmente a vivência clínica como soberana e como ponto de partida para o acadêmico e cientificismo. O caminho traçado hoje é o contrário e o risco de fracasso é crescente como estamos vendo. Quantos titulados estão confortavelmente e dignamente em atuação?
Não estou absolutamente na contra-mão do processo; estou alertando para os equívocos que estão sendo cometidos em função de distorções a que a fisioterapia está sendo submetida com total passividade da categoria.
Na próxima edição darei continuidade a esse tema instigante e aos seus desdobramentos e porque a cegueira do governo em relação à saúde e educação.
Reflitam, discutam, abram para outras vertentes, entrem em contato, pois essa discussão interessa a todos nós.
Até a próxima.

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1 comentário em “Ação primária do fisioterapeuta, magistério, titulação.”

  1. VANESSA DE OLIVEIRA CARNEIRO.

    MAGNÍFICO SEU TEXTO! Belos argumento coesivos, concordo em grau, número e gênero em relação o que você argumentou, precisamos de mudanças e mudanças radicais, desde dos pontos de vistas do próprios profissionais sobre fisioterapia, precisamos nos dedicarmos mais aos estudos, em nossa luta a favor do nosso crescimento, precisamos nos valorizar e não podemos nos aceitarmos trabalhar em troca de baixos salários ou nem ao menos um salário, só assim iremos ganhar respeito como profissional, como pessoa, diante dos pacientes e dos demais profissionais.

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