A OFICINA TERAPÊUTICA NA ATENÇÃO E NO CUIDADO FISIOTERAPÊUTICO AO IDOSO INSTITUCIONALIZADO

• Angela Cristina Ferreira da Silva
• Miriam Beatris Fröeming
• Kassiele Ruschel – Caline Menegaz – Adália Pinheiro – Gustavo Estivalet – Bárbara Pedrali
Sabe-se hoje que a velhice não implica necessariamente doença e afastamento, que o idoso tem potencial para mudança e muitas reservas inexploradas. Assim, os idosos podem sentir-se felizes e realizados e, quanto mais atuantes e integrados em seu meio social, menos ônus trarão para a família e para os serviços de saúde. (Freire, 2000, p. 22)

A prevenção parece ser a saída encontrada pela Gerontologia para escapar do binômio saúde­doença. Com o discurso da “prevenção”, todos os sujeitos são passíveis de intervenção, independentemente de seu estado de saúde ou de sua inserção na “normalidade”. Pela urgência da prevenção, não importa também quando começa a velhice, pois a prevenção deve começar muito antes. Lutando por um envelhecimento bem-sucedido, a Geriatria/Gerontologia parece delinear o seu mais ambicioso projeto, que é disciplinar a vida humana em toda a sua extensão (Groisman, 2002).

Através de revisões de literatura, percebe-se que a utilização de Oficinas Terapêuticas como método e técnica terapêuticos vincula-se diretamente à atenção ao paciente portador de transtornos psiquiátricos. A Fisioterapia atualmente abrange um considerável campo de trabalho, como clínicas, hospitais, centros esportivos, domicílios e instituições geriátricas, entre outros, atuando através de terapias preventivas e de reabilitação.

Direcionando o estudo ao atendimento fisioterapêutico à terceira idade, percebe-se que a interação terapeuta-paciente, e, entre os próprios pacientes das instituições geriátricas, encontram-se muitas vezes limitada, visto que o idoso, muitas vezes também é portador de limitações cognitivas e/ou transtornos psicológicos, apresentando dificuldades no entendimento da atividade proposta.

Segundo Pickles et al (1998), atualmente torna-se cada vez mais comum para a pessoa envelhecer em um ambiente cultural diferente do qual ela se criou. Por opção da família ou do próprio idoso, frente a limitações em relação aos cuidados básicos, prefere-se encaminhar a pessoa da terceira idade a uma instituição especializada, com uma equipe treinada ao suporte de suas necessidades e demandas próprias advindas da idade.
Na terceira idade, a diminuição das capacidades sensoriais e a redução da prontidão para a resposta são características diretamente relacionadas ao comportamento de interação social. Outras habilidades podem ser especialmente importantes, tais como estabelecer e manter contato social, além de lidar com os comportamentos sociais decorrentes de preconceitos contra a velhice, estas geralmente expressas através da evitação de contato, reações agressivas e proteção excessiva (Del Prette & Del Prette, 1999).
De acordo com Bandura (1986), a interação do indivíduo com o ambiente não é só uma questão de saber o que fazer, pois envolve também crenças sobre a sua auto-eficácia. Esta crença refere-se ao julgamento do indivíduo acerca de suas capacidades de organizar e executar ações necessárias para obter desempenho. Tende-se evitar tarefas e situações que são consideradas superiores às capacidades, mas assume-se e se desempenham atividades que julgam capazes de exercer.
Estudo realizado por Carneiro e Falcone (2004) sugere que as principais limitações enfrentadas pelos idosos referm-se à sua auto-eficácia e auto-estima. Além disso, a pessoa idosa, quando comparada com faixas etárias mais jovens, mostram maior rigidez persceptiva e de pensamento, com maior dificuldade de adaptação às modificações do meio; maior intolerância à ambigüidade e tendência ao dogmatismo; susceptibilidade à pressão social; maior interesse pelos próprios problemas, emoções e saúde do que pelo mundo exterior; e atitude mais conformista perante a vida e sua participação social.
Schraiber, Nemes e Mendes-Gonçalves (2000) afirmam que programas de saúde que trabalham diretamente com o envelhecimento permitem uma valorização das manifestações expressas pelos usuários, tanto em âmbito cultural, quanto sócio-familiar, de independência e autonomia. Quando inserido neste tipo de trabalho, o idoso permite-se expressar suas vivências, queixas, insatisfações, inadaptações, modificações do cotidiano que levam à sua dependência, facilitando o conhecimento da equipe quanto à sua clínica e otimizando o tratamento frente ao mesmo.

Delgado, Leal e Venâncio (1997), relatam em seu livro que as oficinas terapêuticas abrangem três caminhos principais, os quais consistem em: espaço de criação (atividades artísticas como propiciadoras da experimentação e da descoberta), espaço de atividades manuais (com produção de produtos úteis à sociedade) e espaço de promoção de interação pessoal (com objetivo de promover a interação entre os participantes e a sociedade).
Para Schraiber, Nemes e Mendes-Gonçalves (2000), é importante à equipe de atenção à terceira idade que se estimule à promoção e que se potencialize situações saudáveis através da integração entre os idosos. Segundo os autores, este tipo de atenção permite ao idoso fortalecer laços de solidariedade, dispor de estratégias de autoconhecimento, autocuidado, organização do tempo e rotina e estabelecimento de metas sociais.
Caldas et al (1998) afirmam ainda que auto-estima e auto-imagem estão diretamente relacionadas com a capacidade de manutenção do estilo de vida, sendo que este deve ser um enfoque primário na assistência ao grupo de terceira idade. Uma vez que proporciona a re-educação da imagem corporal associado ao trabalho de esquema corporal através das diferentes atividades terapêuticas convencionais, mas também através das oficinas terapêuticas.
Uma das principais técnicas utilizadas pela fisioterapia no tratamento preventivo é a Cinesioterapia. Assim como afirmam Kisner e Colby (2002), “O exercício terapêutico é uma das ferramentas-chave que um fisioterapeuta usa para restaurar o bem-estar musculoesquelético ou cardiopulmonar do paciente”. Apesar do conhecimento de sua valia e eficácia no indivíduo idoso, sua aceitação por parte do mesmo por vezes restringe-se, pelo fato de que o idoso muitas vezes se sente incapaz ou desconfortável em realizá-las.
A partir deste pensamento e com o âmbito de otimizar o atendimento prestado ao idoso institucionalizado, um grupo de estagiários do Curso de Fisioterapia da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC, propôs acrescentar ao atendimento fisioterapêutico convencional as atividades baseadas no conceito das Oficinas Terapêuticas, objetivando maior aceitação, assiduidade e permitindo ao paciente maior satisfação na realização das atividades propostas pela equipe de fisioterapia.

O papel do fisioterapeuta frente às oficinas terapêuticas direciona-se aos exercícios e atividades que atendam às necessidades físicas, psíquicas e sociais do idoso. Dentre os objetivos de uma oficina, segundo Caldas et al (1998), pode-se citar:
– Auxiliar e estimular a realização das atividades básicas e cotidianas;
– Estimular a comunicação entre os integrantes do grupo;
– Permitir e estimular a autoconfiança, autovalorização e auto-aceitação;
– Observar e interferir adequadamente em possíveis alterações físicas e emocionais;
– Estimular atividades criativas e exercícios físicos;
– Dar ênfase a atividades de proteção e promoção de saúde, limitando o surgimento e/ou evolução de doenças crônicas;
– Minimizar perda de função,
– Resgatar a cidadania.
“Em outros termos, é a brincadeira que é universal, e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento, e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais (…) como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros”. (Winnicott,1971, pág. 63).
No estágio curricular na Casa Geriátrica na cidade de Santa Cruz do Sul, pudemos ter contato com os diferentes personalidade de idosos, com alterações de auto-estima, depressão, acometimentos osteomusculares, mas procurávamos estabelecer relações de co-responsabilidade e participação na construção de sua melhora resgatando suas habilidades corporais e manuais ao longo do tempo.
A construção do espaço de reflexão/discussão do problema do idoso institucionalizado, suas características, seus anseios, suas limitações adaptativas e sociais foi importante porque se tornou um desafio na medida em que se buscava reeducá-lo ao auto-cuidado, ao desenvolver de suas habilidades restantes, reconstruindo aspectos corporais perdidos e, principalmente, vislumbrando sua melhor qualidade de vida em toda sua integralidade.
Os depoimentos de pacientes assistidos pelos estagiários refletem nossa importância e nossa contribuição na construção do autocuidado porque resgata, antes de tudo, a confiança em si e sua responsabilidade para com seu corpo e sua mente.
“ A pessoa abre um canal, pelo queda entram informações, essa informações vão sendo canalizadas, aprendidas e realizadas, desenvolvendo a mente e o corpo ”(I.F);
“Eu me sinto mais leve depois de participar destes exercícios e de plantar as flores e fazer os enfeites de Natal” (F.D).
Portanto, este reflexo constitui a essência e a proposição da abordagem terapêutica lúdica aos pacientes, e neste foco aos idosos institucionalizados, que contribuem para formação acadêmica dos alunos da graduação e que necessitam vivenciar, acolher e cuidar daqueles que no momento são sujeitos diretos do seu processo de aprendizagem prática e sua transformação pessoal acadêmica em profissional ingressante no mercado de trabalho.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BANDURA, A. Social foundations of throught and action: a social cognitive approach.Englewood Cliffs, 1986.
CALDAS, C. P. et al. A Saúde do Idoso: a arte de cuidar. Rio de Janeiro: UERJ, 1998. 213p.
DELGADO, P; LEAL, E; VENÂNCIO, A. O campo da atenção psicossocial. Anais do Primeiro Congresso de Saúde Mental do Rio de Janeiro. Rio De Janeiro: TeCora, 1997.
DEL PRETTE, Z. & DEL PRETTE. A. Psicologia das habilidades sociais: terapia e educação. Petrópolis: Vozes, 1999.

FALCONE, E. M. O; CARNEIRO, R. S. Um estudo das capacidades e deficiências em habilidades sociais na terceira idade. Maringá: Psicol. estud. v.9, jan/abr. 2004.

FREIRE, S. A. Envelhecimento bem-sucedido e bem-estar psicológico. Campinas: Papirus, 2000.

GROISMAN, D. A velhice, entre o normal e o patológico. História, Ciências, Saúde: Manguinhos 9(1):61-78, 2002.

KISNER, C.; COLBY, L. A. Exercícios Terapêuticos: Fundamentos e Técnicas. 3.ed. São Paulo: Manole, 2002.

PICKLES, B. et al. Fisioterapia na Terceira Idade. São Paulo: Santos, 1998. 498p.

SCHRAIBER, L. B.; NEMES, M. I. B.; MENDES-GONÇALVES, R. B. Saúde do Adulto – Programas e Ações na Unidade Básica. 2.ed. São Paulo: Hucites, 2000. 290p.
Winnicott, D. W. Playng and Reality. London: Tavistock,1971.

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