A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA IMAGEM CORPORAL E ESQUEMA CORPORAL EM PACIENTES COM AVC- CONTRIBUIÇÕES DA EXPRESSÃO GRÁFICA

Autores

*André Chagas Moraes da Costa
*Elizanete de Paula Rodrigues Araújo
*Thaisa Auxliadora. Rodrigues
*Thays Pereira Barbosa
Alunos do curso de Fisioterapia
UNIPLAC- Faculdade de Reabilitação do Planalto Central

**Gilson de Assis Pinheiro
Professor de Psicologia da UNIPLAC
Professor de Psicologia da Universidade Católica de Brasília
Mestre em Psicologia

 
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) pode ser definido como um déficit neurológico focal súbito devido a lesão vascular e podem levar a distúrbios do campo espacial e visual, alterações na fala, hemiplegia, alterações no comportamento de marcha, dificuldades na execução das Atividades de Vida Diária (AVDs), alterações de humor, dentre outras.
Através do grafismo pode-se investigar a noção cognitiva-afetiva, a representação mental do corpo, tanto o corpo formal-físico, quanto o corpo simbólico-representacional nos aspectos afetivo, cognitivo, relacional, intelectivo, sexual, neurológico.
O plano da reabilitação inclui processos onde são inseridos procedimentos e competências que possibilitam o estudo da imagem e esquema corporal e a reabilitação consequentemente proporcionará contribuições para uma nova imagem e esquema corporal.
Frug (2001), assim define esquema corporal:

“esquema corporal define-se como uma tomada de consciência formal do indivíduo no seu mundo das sensações, ou ainda uma maneira de expressar que “meu corpo está no mundo”. É o núcleo fundamental da personalidade e é a partir dele que são organizados todos os comportamentos e conduta. A consciência de si é que determina a consciência do mundo. O esquema corporal não é compreendido só por imagens, mas em especial por relações, pois envolve a relação entre espaço gestual e espaço entre objetos” (pag 36).

Já a imagem corporal, é vista por Cabral (2001), como:

“a imagem inconsciente do corpo, substrato psíquico inconsciente,…ultrapassa o real do corpo e começa a marcar-se por traços, através de percepções sutis, constituindo os primeiros significantes. Trata-se de um traço estrutural da história emocional de cada ser humano, gravado a partir de suas de suas percepções sutis com os outros que são significativos para cada um. É uma expressão inconsciente a partir da qual é elaborada toda expressão do sujeito”.(pag 310)

O emprego da expressão gráfica como forma de adentrar no universo internalizado não é recente. O uso de desenhos visa estabelecer relação com a imagem corporal dentre eles destaca-se a desenho da figura humana. Embora, nele, possamos estabelecer conexões com imagem corporal e esquema corporal, vou me deter no que se refere à imagem corporal. Este desenho tem sido considerado importante como integrante da bateria de testes para identificar desordens da imagem corporal (Sandyk, 1998).
O desenho da figura humana tem proporcionado bons indicadores para a atividade clínica. Há incursões recentes em seu uso com pessoas com Acidente Vascular Cerebral (AVC), onde foi administrado em 51 pessoas com AVC juntamente com a escala de atividades diárias (AVDs) de Klein-Bell, por Chen-Sea (2000), e, observou-se que há correlação entre a imagem corporal e a performance na escala de Atividades de Vida Diária (AVDs), em pessoas com seqüelas em razão do AVC, bem como foi encontrado correlação com aspectos somatosensorórios, alterações motoras, força muscular.
Em estudo de campo foi dada a instrução verbal solicitando a sujeitos com idade superior a 50 anos com AVC que fizessem o desenho de uma pessoa. Após o recebimento dos desenhos constatou-se:
a- macrosomatognosia- refere-se a desordem da imagem corporal na qual o paciente percebe parte ou partes de seu corpo desproporcionalmente largos. Estas alterações têm sido correlacionadas a lesões em regiões do lobo parietal (Sandyk, 1998), a qual integra funções percepto-sensório-motoras relacionadas à imagem corporal.
b- A expressão gráfica permite observar aspectos emocionais importantes no manejo clínico do paciente. Finset e Anderson (2000) chamam atenção para as diferentes formas individuais de enfrentamento (coping) em pessoas que sofreram AVC, destacando a apatia e sintomas depressivos, esquiva, como variações na expressão da topografia do comportamento adaptativo de acordo com a área de localização do AVC.
c- A investigação da imagem corporal, esquema corporal, consciência do movimento corporal nos vetores referentes aos aspectos espacial, temporal são de suma importância na avaliação do sucesso clínico de uma terapia proposta ao paciente (Tham, Ginsburg e Tegner, 2001) e devem ser objetos de avaliação pelo fisioterapeuta. A imagem corporal, a consciência do movimento (e a performance) interfere no treinamento principalmente no que tange a intervenção estratégica e aprendizado de técnicas compensatórias em pessoas com heminegligência ou negligência unilateral (Tham, Borell e Gustavsson, 2000)
d- Foi possível observar as distorções na imagem e esquema corporal e outras dificuldades psicomotoras. E durante as entrevistas não estruturadas realizadas, notou-se alterações na memória, dificuldades na realização, alterações na marcha, estado de humor, fala e comunicação verbal e gestual, manipulação de objetos, domínio corporal, deslocamento no espaço físico (espaço geográfico).
e- Ficou bem demarcado no desenho o lado negligenciado, principalmente no que se refere à vivência, consciência e ajustamento dos diversos sujeitos no processo de adaptação e ressocialização. Nota-se o corpo e sua relação com a existência humana onde Existir é viver. A imagem corporal expressa no desenho reflete a qualidade da existência.

Nochi em 1998 informa que há pessoas que narram a experenciação da “perda do eu” em virtude da perda sofrida (o deficit é físico e emocional). Juntamente com as intervenções fisioterapêuticas, também ocorrerá uma reabilitação do “eu perdido” para o encontro com a cidadania, para o auto-conhecimento, para uma melhor assertividade. Este sentimento de perda, de sintomas melancólicos ou depressivos são também observados nos desenhos.
Em uma observação com referencial Lacaniano, Morin, Thibierge e Perrigot (2001) citam um caso onde o paciente descrevia em entrevistas semi-dirigidas, que a imagem especular do paciente foi correlacionada com a imagem “hemi-injuriada” e que o parte do corpo privada com a heminegligência “deprivou-se” de valor simbólico. Neste caso a anosodiaforia e heminegligência pareciam contribuir de formas diferentes para a repressão de aparência intrusiva do corpo real.
O estudo da hemi e pseudo-negligência têm ganhado considerável atenção na literatura (Chen-Sea, 2000, Jewell & Mc Court, 2000; Kerkhoof, 2001, McCourt, Freeman, Tahhmahkera-Stevens e Chaussee, 2001) nos aspectos da expressão gráfica, nos aspectos espacial, viso-motor, processos atencionais e perceptuais, neurobiológico, comportamental.
Vale destacar que distúrbios da percepção e imagem corporal são seqüelas comuns em pessoas que sofreram AVC. Há uma estreita relação entre o funcionamento perceptual e a execução das AVDs. A ligação com a negligência unilateral e a execução das AVDs tem sido amplamente estudado, no entanto, as relações com a somatognosia e imagem corporal muito ainda falta para a compreensão total deste funcionamento (Rubio e Van Deusen, 1995).
O corpo da pessoa que sofreu AVC, não é apenas o corpo biológico, é também o corpo que se relaciona com o mundo, que expressa emoções, que constrói relações, e o desenho possibilita o adentrar em um mundo simbólico, onde ser identifica a imagem e o esquema corporal.
Um programa de intervenção deve estabelecer uma metodologia adequada que vise no processo de reabilitação a melhora da auto-estima, da auto-imagem, da imagem corporal. Identificar as seqüelas advindas do acidente vascular é um passo importante no lidar com a imagem corporal, no entanto, o corpo vivido pode ser muito bem evidenciado na produção do desenho da figura humana.
Diante destes itens, pode-se ver o ser humano como um todo, e adotar uma ação mais globalizante, não sendo o profissional apenas um instrumental-operatório de trabalho mais um importante papel inserir no processo de reabilitação o corpo físico-emocional-social.
A expressão gráfica identifica a imagem corporal e tem sido muito empregada nestas incursões, possibilitando ser uma ferramenta importante na reabilitação do eu, na reabilitação da imagem corporal, do corpo que marcha, que afaga, que sente e que é sensível, que faz preensão no espaço e tempo e que se relaciona e que ocupa um espaço no contexto histórico-social.
Na relação com o outro, o profissional decodifica a leitura simbólica da expressão gráfica em sujeitos com hemi-negligência, ou seja, também a leitura corporal, o código psicomotor, a mímica depressiva, melancólica ou distímica, a inibição gestual e vocal. A sessões de fisioterapia, representarão a partir da leitura da imagem e esquema corporal o resgate do eu e a interferência no vazio afetivo proporcionando melhor qualidade de vida.

Referências bibliográficas

Cabral, S. V. (2001). Psicomotricidade Relacional- prática clínica e escolar. Ed Revinter. Rio de Janeiro, R.J.354 p
Chen-Sea, M. J. (2000). Validating the Draw-A-Man Test as a personal neglect test. American Journal of Occupational Therapy. 54: 391-397.
Finset, A. & Andersson, S. (2000). Coping strategies in patients with acquired brain injury: Relationship between coping, apathy, depression and lesion location. Brain Injury. 14: (10) 887-905.
Frug, C. S. (2001).Educação Motora em portadores de deficiência. Formação da consciência corporal. Ed Plexus.São Paulo-SP.107p
Jewell, G. & Mc Court, M. E. (2000). Pseudoneglect: a review and meta-analysis of performance factors in line bisection tasks. Neuropsichologia. 38: (1) 93-110.
Kerkhoof, G. (2001). Spatial hemineglect in humans. Progress in neurobiology. 63: (1) 1-27.
McCourt, M. E., Freeman, P., Tahhmahkera-Stevens,C. & Chaussee, M. (2001). The influence of unimanual response of pseudoneglect magnitude. Brain and Cognition. 45: (1) 52-63.
Morin,, C., Thibierge, S. & Perigot, M. (2001). Right brain damage, body imagem, and language: a psychoanalytic perpective. Journal of Mind and Behavior. 22: (1)69-89.
Nochi, M. (1998). “Loss of self” in the narratives of people with traumatic brain injuries: a qualitative analysis. Social Science & Medicine. 46: (7)869-878.
Sandyk, R. (1998). Reversal of a body image disorder (macrosomatognosia) in Parkinson’s disease by treatment with AC pulsed electromagnetic fields. International Journal of Neuroscience. 93: (1-2) 43-54.
Rubio, K. B. & Van Deusen, J. (1995). Relation of perceptual and body-image dysfunction to activies of daily living of persons after stroke. American Journal of Occupational Therapy. 49: (6) 551-559.
Than, K, Borell, L & Gustavsson, A. (2000). The discovery of disability: a phenomenological study of unilateral neglect. American Journal of Occupational Therapy. 54: (4) 398-406.

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