A IMPORTÂNCIA DA LUDICIDADE NO TRATAMENTO FISIOTERÁPICO DE CRIANÇAS DE 18 A 36 MESES

Camila Denardi; Caren Medeiros; Fernanda Pascotini; Luisele Dornelles; Vivian Bianchini; Melissa Medeiros Braz

Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil
E-mail: melissabraz@hotmail.com

RESUMO

O brincar pode provocar a destruição da barreira existente entre o profissional de saúde e a criança, porque nesta atividade a criança pode exteriorizar seus medos e revelar-se inteiramente, resgatando a alegria e a afetividade. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos de uma abordagem lúdica relacionada ao tratamento fisioterapêutico com crianças de uma escola em Santa Maria, RS. A pesquisa teve como amostra 10 crianças de 18 a 36 meses, estudantes do Maternal 1. As atividades eram realizadas uma vez por semana, onde as crianças recebiam tratamento fisioterapêutico associado à atividades lúdicas. No início da realização das atividades na escola, houve uma rejeição por parte das crianças. Apegadas à professora, estas choravam e respondiam negativamente às intervenções fisioterapêuticas. Foi através de brincadeiras e atividades lúdicas que conquistou-se a confiança dessas crianças para que as atividades programadas fossem realizadas efetivamente, promovendo uma boa resposta da criança ao tratamento.

Palavras-chave: Fisioterapia; Ludicidade; Crianças.

1. INTRODUÇÃO

Cada vez mais, diante de uma maior compreensão da vida das crianças, o que gera um aumento do respeito pelas suas necessidades, o brincar assume importância fundamental como mantenedor da estabilidade física e emocional tão indispensável, como forma de compensação às circunstâncias adversas, que a vida moderna tem colocado às novas gerações (BOMTEMPO et al 2008).
A maior aprendizagem está na oportunidade oferecida à criança de aplicar algo da atividade lúdica dirigida a alguma outra situação (BOMTEMPO et al, 2008). O brincar pode ser um meio de adaptação para estabelecer técnicas terapêuticas que sejam bem aceitas pelas crianças.
Visto que crianças nessa faixa etária de 18 a 36 meses possuem dificuldade, espécie de medo, em aceitar intervenções médicas (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas…) geralmente por decorrência de traumas anteriores, introduz-se a ludicidade, que surge para facilitar a intervenção destes profissionais. Somente a partir desta experimentação que as crianças vencem obstáculos, tornando esses medos ausentes ou diminuídos. Porém, isto só ocorre através da forma com que vão receber e aceitar essa experimentação (FLAVELL, 1992).
A criança começa a associar o seu bem-estar com o comportamento sistemático das pessoas que cuidam delas, pois é a partir dos 18 meses que os alicerces da autonomia e confiança são implantados. Essa confiança nas pessoas do mundo circundante é resultado de um processo ou regularidade. Tal sentimento parece ser adquirido mais pela qualidade que pela quantidade das relações (SANTOS, 2004).
É nesse contexto, compreendido entre 18 e 36 meses, que se torna presente a ludicidade, sendo entendida como “jogos e brinquedos ou jogos públicos dos antigos” (MICHAELIS, 2008). O brincar, além de aumentar o interesse infantil, provoca a destruição da barreira existente entre o profissional de saúde e a criança, assumindo função terapêutica porque, de acordo com Santos (2004), são nestas atividades que a criança pode exteriorizar seus medos, angústias, problemas internos e revelar-se inteiramente, resgatando a alegria, a felicidade, a afetividade e o entusiasmo.
Ao nos depararmos com a dificuldade de aproximação e interação com as crianças na faixa etária de 18 a 36 meses, fez-se necessária a introdução de formas lúdicas ao encontro do vínculo e tratamento, afinal, é através de brincadeiras que o paciente se torna colaborativo (BOMTEMPO, 2008). Crianças nessa faixa etária possuem dificuldade no vínculo com pessoas estranhas. Conforme a escala de desenvolvimento de Gesell e Amatruda (KNOBLOCK E PASSAMANICK, 2002), esta falta de vínculo é acentuada com pessoas com quem costumam passar a maior parte do tempo.
Através do brincar e da ludicidade, a criança aprende novos conceitos, adquire informações, desenvolve habilidades, aprende regras e se torna um adulto muito mais equilibrado física e emocionalmente (BOMTEMPO, 2008). Além disso, é um recurso de construção da identidade de cada ser humano, e de autoconhecimento. É o elemento potencializador do trabalho educativo e terapêutico (MALUF, 2003).
Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar os efeitos de uma abordagem lúdica relacionada ao tratamento fisioterapêutico com crianças de 18 a 36 meses da Escola Municipal de Educação Infantil Darcy Vargas, em Santa Maria, Rio Grande do Sul.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

A pesquisa realizada foi do tipo descritiva, tendo como amostra 10 crianças, sendo 6 meninas e 4 meninos, na faixa etária de 18 a 36 meses, estudantes do maternal 1 da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Darcy Vargas, na cidade de Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul. Uma série de atividades eram realizadas uma vez por semana, nas segundas-feiras, no período entre 13h30min e 15h, de março a junho de 2008, onde as crianças recebiam tratamento fisioterapêutico associado à atividades lúdicas nas mais variadas áreas de atuação da profissão.
As atividades eram direcionadas para as principais dificuldades e/ou patologias encontradas nessas crianças, tais como:
1) Atividades para o sistemas respiratório, com o objetivo de melhorar o padrão respiratório, incentivar a expiração prolongada e o uso do freno labial, estimular a expiração forçada e mantê-la por alguns segundos. Para tanto, foram utilizados recursos lúdicos como: bolas de sabão (fig. 01) e língua de sogra (fig.02).
A ausculta pulmonar também foi realizada para verificar a necessidade das manobras de higiene brônquica que foram realizadas nas crianças que apresentavam ruídos adventícios. As manobras realizadas foram: Tapotagem, vibração, vibro compressão, expiração lenta e prolongada (ELP), técnica de expiração forçada (TEF), temp lento e estímulo à tosse (estímulo na fúrcula e huffing).


2) Atividades de consciência corporal, com a finalidade de estimular o conhecimento do corpo e a coordenação motora. A música “Cabeça, ombro, joelho e pé” (Xuxa) e outras danças com comando verbal indicando a parte do corpo a ser tocada serviram para alcançar a meta da atividade;
3) Atividades de estímulo à motricidade ampla e fina, fazendo uso de brinquedos como: Bambolê, onde as crianças deveriam passar por dentro; Cavalo de pau, para fazer corridas; Minhocão; Escorregador; Bonecos de pelúcia, a serem passados nas laterais para o colega de trás (fig.03); Desenhos para pintar; e Balões. Essas atividades tinham o propósito de movimentar a criança, dissociar cinturas, estimular sua motricidade, incitar a obediência às regras da brincadeira e estimular a criatividade.

Fig. 03- Uso do boneco de pelúcia para dissociação de cinturas, passando o boneco para o colega de trás pelas laterais.
4) Atividades para estimular equilíbrio e coordenação, tais como: circuito composto de minhocão, bambolê, obstáculos para saltar, colchonete para andar em cima e cavalinho-de-pau. As crianças deveriam completar o circuito na sua ordem, desenvolvendo assim a coordenação motora e a capacidade de obedecer a ordens; brincadeiras de roda, associada a movimentos alternados de membros superiores e inferiores do tipo chutar a bola, pular em um pé, agachar, ficar na ponta dos pés, etc; círculos e retas no chão, onde as crianças deveriam percorrer a linha desenhada, sem sair do percurso delimitado;
5) Atividades de estímulo à audição, visão e concentração, fazendo uso de fantoches, livros de histórias infantis e músicas infantis.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A expressão lúdica tem a capacidade de unir razão e emoção, conhecimento e sonho, formando um ser humano mais completo e pleno (SANTOS, 2004). A partir da análise do comportamento das crianças estudadas, quando exercícios lúdicos foram propostos, pôde-se verificar a real importância da ludicidade quando se trata da intervenção fisioterapêutica.
Logo no início da realização das atividades na escola, houve uma rejeição por parte das crianças com a nossa chegada. Apegadas à professora, as crianças choravam e respondiam negativamente às intervenções fisioterapêuticas. Foi através de brincadeiras e atividades lúdicas que conquistamos a confiança dessas crianças para que as atividades programadas fossem realizadas efetivamente.
As bolas de sabão, línguas de sogra e o circuito, foram as atividades mais bem aceitas e que trouxeram resultados significativos. Nelas, todas as crianças aceitaram participar sem se inibir, trazendo a eficácia pretendida.
Santos (2004) refere que nessa idade a atenção da criança ainda é dispersa. Por isso as histórias infantis e os fantoches não foram aceitos pelas crianças e todas elas procuraram outra atividade para realizar nesse momento. A falta de atenção e interesse tornou a atividade falha, não contribuindo para a terapêutica pretendida.
As demais atividades foram bem aceitas, mas não se conseguiu a participação de todas as crianças. As atividades, necessariamente, não se adaptam a todas as crianças, já que é preciso entender que nem todas elas se manifestam da mesma forma ao que lhe é proposto.
No seu comportamento diário, a criança apresenta momentos de timidez e retraimento, e ao mesmo tempo, aproximação e agressividade; nunca se sabe como vai reagir à presença de estranhos (SANTOS, 2004). Foi a partir dessa afirmação que começou-se a aplicar atividades conforme a aceitação de cada criança.

4. CONCLUSÃO

Devido à dificuldade de interagir com crianças entre 18 e 36 meses pelo fato de estas estarem extremamente apegadas às pessoas com que convivem a maior parte do tempo, percebe-se a grande importância do uso da ludicidade em intervenções fisioterapêuticas para a criação do vínculo e da confiança.
Com o objetivo de avaliar os efeitos de uma abordagem lúdica relacionada ao tratamento fisioterapêutico com crianças dessa faixa etária, comprovou-se a eficácia dessa abordagem, mostrando ser a forma mais fácil e eficiente de aproximar terapeuta e criança, promovendo uma boa resposta da criança ao tratamento.

REFERÊNCIAS

BOMTEMPO, E.; ANTUNHA, E.G., OLIVEIRA, V.B. Brincando na escola, no hospital, na rua… Rio de Janeiro: Wak, 2008.

FLAVELL, J.H. A psicologia do desenvolvimento de Jean Piaget. São Paulo: Pioneira, 1992.

KNOBLOCK, H.; PASSAMANICK, B. Gessel e Amatruda: psicologia do desenvolvimento do lactente e da criança pequena: bases neuropsicológicas e comportamentais. São Paulo: Atheneu, 2002.

MALUF, A.C.M. Brincar: prazer e aprendizado. Petrópolis: Vozes, 2003.

MICHAELIS. Dicionário online. Disponível em www.michaelis.com.br. Acessado em 10/06/09.

PIAGET, J.; INHELDER B. A psicologia da criança. Rio de Janeiro,: Bertrand Brasil, 1995.

SANTOS, S.M. Brinquedo e infância. Petrópolis: Vozes, 2004.

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