A atuação da fisioterapia preventiva em LER/DORT no âmbito empresarial

As doenças ocupacionais afetam o trabalhador há muito tempo, e com a expansão industrial estes distúrbios aumentaram drasticamente, sendo objeto de estudos até os dias atuais.1

A expressão “saúde do trabalhador” refere-se a uma área do saber que estuda o relacionamento entre o trabalho e o processo saúde/doença, e apresenta o fundamento de suas ações no âmbito multiprofissional, intersetorial e interdisciplinar.2

Os profissionais de saúde discutem vários aspectos da saúde do trabalhador, como o nome, a sua existência, a conduta após o diagnóstico de distúrbios ocupacionais, e principalmente quando se referem à prevenção.3

O médico Mendes Ribeiro, em 1986, introduziu no Brasil o termo LER (lesão por esforço repetitivo), durante o I Encontro Estadual de Saúde, realizado no Rio Grande do Sul. Esta lesão era comumente conhecida como Tenossinovite Ocupacional, Cãibra Ocupacional, e até mesmo Doença das Lavadeiras.4

Por volta de 1990, o termo DORT (distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho) foi introduzido no Brasil, traduzido de Work-related Musculo-skeletal Disorders of the Upper Limbs (WMSDs), que era adotado na Europa, e Works-related Upper-extremety disorders (WRUEDs), adotado nos Estados Unidos da América. Esta nova nomenclatura aconteceu devido ao desuso do termo LER, que indicava somente lesões por esforços repetitivos.4, 5

Os principais distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho são: tendinite do músculo bíceps, compressão do nervo ulnar, inflamação do músculo pronador redondo com compressão do nervo mediano tendinite e tenossinovite dos músculos dos antebraços, epicondilite medial e lateral, bursite de cotovelo e ombro, síndrome do desfiladeiro torácico, síndrome da tensão cervical e lombalgia, tendinite do músculo supra-espinhoso, cisto gangliônico no punho, tendinite De Quervain, síndrome do túnel do carpo e compressão do nervo radial.6

Os transtornos relacionados aos DORT alcançam diversas categorias de profissionais, apresentando o uso da força excessiva, posturas inadequadas, movimentos repetitivos e/ou esforços por muito tempo, como principais causas para seu surgimento.4, 7

A fisioterapia preventiva iniciou-se por volta de 1970, pelos exercícios denominados de back school (“escola de postura”), vale ressaltar a importância da prevenção destes distúrbios através de intervenções que trabalham com um grupo de atividades centradas nos indivíduos, como a ginástica laboral, exercícios de pausa compensatória, correções posturais e treinamentos de manejo de peso.8

Com isso, o presente trabalho busca enfatizar a fisioterapia na saúde do trabalhador, como forma preventiva, buscando ampliar a importância desta intervenção às empresas, para que haja uma minimização e/ou prevenção das doenças ocupacionais, gerando melhor desempenho do trabalhador, aumento da lucratividade e qualidade em seus serviços.

REVISÃO DE LITERATURA

LER/DORT
Conceituação de LER/DORT

A LER/DORT é conceituada com uma síndrome relacionada ao trabalho, caracterizada por eventuais sintomas associados ou não, como: dor, sensação de peso, parestesia e fadiga.3 Manifestando-se, principalmente, em região cervical, cintura escapular e/ou membros superiores decorrentes das atividades laborais.7 Estes distúrbios ocupacionais são frequentes entre o sexo feminino e na faixa etária entre 20 e 40 anos de idade.9

As estruturas anatômicas acometidas, geralmente, estão presentes nas principais articulações dos membros superiores e inferiores. Podem ser classificadas conforme sua localização anatômica em dois grupos: estruturas localizadas no interior das articulações (sinovias, ligamentos e cápsulas) e estruturas posicionadas ao redor das articulações (tendões, músculos, fáscias e nervos).7 Essas regiões recebem grande carga provindas da realização dos movimentos musculares repetitivos e/ou exagerados.10

O DORT é o resultado das interações entre o indivíduo e seu ambiente, com predisposição de condições físicas e psíquicas, relacionados a um ambiente de trabalho facilitador, onde os aspectos quantitativos são maiores em relação aos aspectos qualitativos.8

As LER/DORT são, atualmente, um dos principais problemas de saúde pública, sendo responsáveis por aproximadamente 90% dos afastamentos no trabalho. Estudos apontam que as DORT ocupam a primeira posição das doenças ocupacionais no Brasil, com tendência mundial no aumento da incidência desses distúrbios.11

A saúde do trabalhador encontra-se legalmente embasada, na Lei Orgânica de Saúde nº. 8080/90, que define a saúde do trabalhador como um conjunto de atividades com o propósito de promover e proteger o indivíduo, assim como a recuperação e reabilitação dos riscos submetidos às condições de trabalho, através de ações de vigilância epidemiológica e sanitária.12

Fatores etiológicos
Os fatores de riscos das LER/DORT incluem, de um modo geral, os itens do trabalho que se relacionam de alguma forma, direta ou indiretamente, com a manifestação clínica, e podem ser divididos em dois grupos: os fatores intrínsecos, que são aqueles inerentes ao trabalhador, como, postura inadequada, antropometria inadequada, dentre outros; os fatores extrínsecos, que são aqueles que dizem respeito às empresas, como, ritmo das atividades, condições ambientais desfavoráveis, organização do trabalho, dentre outros. Existe outra maneira de esquematizar os fatores de riscos, dividindo-os por categorias: fatores biomecânicos (exemplo, força excessiva na realização da tarefa), organizacionais (exemplo, ausência de pausas), ambientais (exemplo, frio) e psicoemocionais (exemplo, estresse).8

Estes fatores etiológicos interagem entre si e sobre o trabalhador de modo a determinar a carga estática e dinâmica sobre os ossos e músculos, e às reações de estresse, que em desequilíbrio desencadeiam o aparecimento de LER/DORT. A utilização excessiva da musculatura é determinada por posturas inadequadas, posições mantidas por muito tempo, agressões externas ao aparelho osteomuscular, devido aos arranjos físicos e dimensões não adaptadas às características antropométricas de cada indivíduo.13

Geralmente, após decorrentes solicitações do aparelho locomotor durante a realização das atividades, associadas a eventos traumáticos, seja físicos ou emocionais, podem resultar em dor e incapacidade funcional. Os estresses resultam em aumento do tônus muscular e predispõem ao surgimento das síndromes dolorosas miofasciais.14

Algumas anormalidades do aparelho locomotor, nos episódios de DORT, tais como, pressões excessivas osteoarticulares, inflamações, estreitamentos anatômicos, cicatrizes, aderências e espasmos musculares, podem ativar os nociceptores no local da lesão ou em regiões próximas, desencadeando quadros álgicos.14

O DORT desenvolve a partir da incapacidade biológica natural de reparação dos tecidos, ou não possui tempo suficiente para tal evento, pois os fatores que causam a alteração do desequilíbrio retornam precocemente. Surgindo, duas respostas imediatas: um recorrente processo inflamatório, que leva a cronicidade; e ausência de tempo suficiente para a produção de lubrificantes, aumentando o atrito entre as estruturas, promovendo novamente a inflamação.8

O diagnóstico dos DORT é baseado na avaliação ocupacional, exame clínico detalhado, e análise das situações ocupacionais, quando a dados ergonômicos e epidemiológicos.13

3.2 ASPECTOS ERGONÔMICOS E PREVENTIVOS
3.2.1 Ergonomia

A Ergonomia é a intervenção e a ciência que busca a adaptação entre o ser humano e o seu trabalho, procurando o arranjo entre pessoas, suas atividades, equipamentos que utilizam e o seu ambiente de trabalho. De caráter multidisciplinar, seu objetivo principal é investigar aspectos e adaptar o trabalho ao perfil do ser humano, quanto ao desconforto aos trabalhadores e apresentar modificações nas condições de trabalho, com a finalidade de melhorar o bem estar e o desempenho global do sistema.15

A definição de ergonomia foi realizada primeiramente pelo cientista Wojcjech Jarstembowky, em 1857, na época do movimento industrialista europeu, onde estabelecia a ergonomia como uma ciência do trabalho que compreende a atividade humana em termos de esforço, pensamento, relacionamento e dedicação. Este termo é derivado das palavras gregas ergon que significa trabalho e nomos que significa regras. Nos Estados Unidos este termo é usado como sinônimo de “fatores humanos”.16

É uma ciência que estuda as interações de homens com outros elementos do sistema, relacionando a teoria com princípios e métodos de projeto, é aplicada a máquinas, equipamentos, sistemas e tarefas, com a finalidade de melhorar a segurança, saúde, conforto e eficiência no trabalho.17

As empresas vêm empregando a ergonomia na intervenção de diversos problemas de produção que enfrentam, como custo de doenças relacionadas ao trabalho, postos de trabalhos ou ambiente inadequados, qualidade insatisfatória dos processos de produção e seus produtos, funcionamento inadequado de máquinas, equipamentos e softwares, dentre outros. A partir de um diagnóstico ergonômico torna-se necessária à adequação das interfaces, como o desenvolvimento de novos produtos, sistemas de produção, novas instalações, implantação de novas tecnologias e novos sistemas organizacionais, além de inovações nos equipamentos.16

3.2.2 Prevenção
No local de trabalho há três níveis de prevenção: a prevenção primária, caracterizada pela eliminação ou amenização dos riscos de lesão, são medidas realizadas no período que antecedem ao distúrbio, por exemplo, exercícios de treinamento e educação; a prevenção secundária, caracterizada pelo período de patogênese, onde é necessário estabelecer intervenções terapêuticas para que o trabalhador retorne o mais breve possível, por exemplo, avaliações contínuas e assistência ao indivíduo; e a prevenção terciária, caracterizada por ações que evitem o reaparecimento das lesões em um trabalhador que já passou pelos estágios anteriores, por exemplo, tratamento pós-operatório, reabilitação funcional durante o período de recuperação.8

Para prevenir LER/DORT é necessário eliminar ou amenizar as situações ou condições que levam ao seu surgimento, investigando quais as causas ou condições de trabalho que estão associadas, prevenindo-as através de orientações e intervenção ergonômica no ambiente de trabalho. 18

3.2.3 Fisioterapia preventiva
A fisioterapia preventiva engloba um conjunto de ações que amenizam ou eliminam os fatores etiológicos de dores e desconfortos no trabalho, através de estímulos da percepção e consciência corporal, instrução acerca das posturas inadequadas, organização espaço-temporal, programas preventivos de orientação, ginástica laboral, que são exercícios físicos específicos durante o expediente, objetivando o relaxamento e alongamento muscular.19

Os benefícios diretos para as empresas seriam a melhoria na qualidade no serviço, diminuição do absenteísmo, agilidade do colaborador; já para os trabalhadores incluem diminuição dos quadros álgicos, prevenção das doenças ocupacionais, diminuição do cansaço e fadiga muscular, melhor relacionamento entre a equipe e o ambiente de trabalho, melhor desempenho nas tarefas, aumento da produtividade.8

Os exercícios laborais funcionam como instrumento de promoção da saúde e do desempenho profissional, que ocorre naturalmente após a diminuição do sedentarismo, da melhora do nível de estresse e qualidade de vida.19 Os treinamentos com alongamentos previnem distúrbios musculoesqueléticos, devido o aumento do comprimento das estruturas elásticas dos músculos, tendões e fáscias encurtados, e com isso melhoram o desempenho durante as tarefas, a postura e promovem alívio de dores e relaxamento mental e físico.20

A fisioterapia possui uma especialidade que atua neste âmbito do trabalhador com um enfoque multiprofissional e interdisciplinar, resgatando, prevenindo e promovendo a manutenção da saúde, e é denominada fisioterapia do trabalho. Com o propósito de melhorar a qualidade de vida do trabalhador, através de abordagens ergonômicas, biomecânicas, atividades laborais e recuperação de queixas e desconfortos. O fisioterapeuta do trabalho pode atuar em análises ergonômicas (e suas intervenções), biomecânicas e antropométricas, exercícios laborais, avaliação postural e promoção da saúde através de conscientização.8

Paulo Adrian Assunção da Silva

Possui graduação em Fisioterapia pela Universidade Paulista – Campus Manaus (2012). Pós-graduado em Estética e Cosmetologia. Desde 2010, exerce a função de diretor da empresa Centro de Formação Profissional Leduc, além de ministrar aulas de massoterapia e cursos voltados para terapias corporais e estética.

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