Ele nasceu no Rio mas não canta as belezas naturais da Cidade Maravilhosa, muito menos as meninas douradas das praias ensolaradas, não possui sequer a espontaneidade e o espírito carioca de ser, muito pelo contrário, Filósofo Graduado, funcionário Público e figura marcante da cena cult, o cantor e poeta Rogério Skylab exalta o bizarro e a loucura imprevisível em sua obra. Iniciou sua carreira musical em 1992, ganhando grande notoriedade nacional ao aparecer, mais de duas vezes, no programa de entrevistas de Jô Soares. Sempre criativo e misturando diferentes ritmos ele fala sobre seu sexto CD e o acidente que o levou a lona
"Para alguns, um gênio, para outros, louco"
Verdade que sua maior qualidade é não fazer nada?
A questão é a seguinte: a coisa mais difícil que existe é provar para as pessoas que quando estou quietinho, deitado na rede, enrolando o cabelo, é o momento em que eu estou mais trabalhando.
Qual seu Hobby?
Meu hobby é justamente este: não fazer porra nenhuma. Claro, depois que as músicas estão compostas aí sim vem à moleza: fazer ensaios, arranjos, ficar enfurnado no estúdio... ou seja, aí é tranqüilo. Difícil mesmo é quando você está só, olhando pro nada, confabulando consigo mesmo, fazendo música. É quando eu não estou fazendo nada que eu fico muito cansado.
O que é mais deplorável em você?
Eu sou um ser deplorável. Fica realmente difícil dizer o que é mais deplorável em mim. O meu corpo, a minha cara, ou o meu pensamento? Talvez o meu hálito, talvez o meu mau cheiro. Os meus vícios são deploráveis. A minha saúde é deplorável. Os meus poemas então... A minha música, coitada. Não há nada mais deplorável do que minha música.
Você acha que o reconhecimento que vem recebendo por parte da mídia pode te domesticar?
Hein????
Qual melhor a definição para sua música, rock, punk, death...?
Eu vou te dizer uma coisa, eu luto em prol da indefinição. Quanto mais indefinido melhor. Daí porque não tem sentido nenhum definir a minha música como punk, metal ou coisa que o valha. O que você disser de mim, eu desdigo.
Você já censurou alguma música sua?
Já censuraram a minha música. Por exemplo: a Revista Outra Coisa quando lançou o SKYLAB V, cortou a música FÁTIMA BERNARDES EXPERIÊNCIA. Eu compreendo o problema que eles poderiam estar comprando, caso a lançassem. Eu não os censuro, muito menos a mim. Eu tenho um poema no livro DEBAIXO DAS RODAS DE UM AUTOMÓVEL, chamado ESPAÇO EM BRANCO, que diz assim:
“Ontem a noite não usei camisinha.
Em verdade, nunca a uso.
Transo em banheiros públicos, saunas, clubes privês.
A poesia não é serviço de utilidade pública.”
Quer dizer... acho que respondi a sua pergunta.
Cantando o bizarro o que você acha do tropicalismo? Céu ou inferno?
Há há há há há. Boa pergunta. Caberia num livro. O que dizer, meu Deus? Sabe cara, vou te responder de uma maneira meio enviesada, assim como eu sou mesmo. Diferentemente do que muitos podem pensar, eu me sinto ligado à Poesia Contemporânea. Eu não sou nenhum caso à parte. Muitos quiseram me isolar, como uma forma mesmo de me tornar inofensivo. “Esse é aquele cara maluco, uma figuraça, engraçado à beça, o matador de passarinho, que foi no Jô”. É uma forma de tornar o outro “exótico”, desarmá-lo, torná-lo digno de uma boa risada. Claro que eu não estou só. As minhas relações de afinidade passam por muita gente: Zumbi do Mato, Daminhão Experiença, Marcelo Birck, Maurício Pereira (dos Mulheres Negras), Arrigo Barnabé, e talvez a minha referência maior – Frank Zappa. Ora, ao que me consta, excetuando Tom Zé que sempre foi um renegado, o Tropicalismo não passa por essas trilhas. Beatles ou Rolling Stones foram grandes referências para os tropicalistas. Zappa não gostava de nenhum dos dois. A estratégia tropicalista era juntar Jovem Guarda, Beatles e qualquer outro movimento de massa, para fazer dessa junção, o seu próprio movimento de massa. Algo semelhante a Pop Art. Daí porque o Tropicalismo é o último grande movimento. Depois dele, não existe mais nenhum grande discurso, e isso é maravilhoso. É o que eu chamo de contemporâneo. Portanto, eu não tenho muito a ver com o tropicalismo não. Se bem que eu reconheça que ele está presente ainda em muitas expressões artísticas, inclusive no rock.
Como vê a cena alternativa carioca?
Quanto à cena carioca, tá cheia de tropicalistazinhos...
Qual é seu o hino, o Stairway to Heaven de Rogério Skylab?
Meu Stairway to Heaven? Nossa !!!! Vou dizer “Wille the Pimp” do Hot Rats do Zappa, disco de 1969.
Skylab VI foi gravado ao vivo com a banda?
Todos os meus discos são gravados ao vivo com a banda.
As músicas deste álbum já existiam ou foram compostas apenas para ele?
Minhas músicas vão sendo compostas independentemente dos álbuns. Depois faço as minhas escolhas.
Como nossa revista é sobre fisioterapia, devo lhe perguntar. Como foi seu acidente?
Eu saí do meu trabalho no Banco do Brasil (não é agência, é órgão da Direção Geral) e fui rápido pra casa porque uma fotógrafa do Globo me aguardava. Eu ia tirar umas fotos para a coluna “Gente Boa” do jornal o Globo. Estava ansioso porque era o lançamento do SKYLAB V. Naquele dia estava chovendo. Eu escorreguei e caí de queixo em cima daqueles gelos baianos que ficam nas calçadas para impedir o estacionamento dos carros. Quando caí, eu cheguei a desmaiar, mas recobrei a consciência logo e percebi que a minha boca não estava fechando direito. Assim mesmo, continuei meu caminho, meio cambaleando, porque precisava tirar as fotos. Cheguei em casa todo sujo, meio sangrando, e a fotógrafa ainda me aguardava. Pedi pra que ela esperasse dois minutos, tomei um banho rápido e tirei as fotos. Depois foi que vi o estrago: eu tinha fraturado a mandíbula. As fotos acabaram não sendo publicadas no jornal.
Quantas cirurgias?
Fiz duas cirurgias. A primeira foi uma embromação: fizeram uma atrocentese e não mexeram no osso fraturado. Se eu não fizesse a segunda cirurgia, com uma outra equipe médica, que introduziu um pino na minha mandíbula direita, é bem possível que hoje eu estivesse sofrendo um processo de anquilose, não abrindo a boca direito.
Onde foi operado?
Foi no hospital São Vicente de Paula.
Como foi o tratamento fisioterapêutico?
O processo de fisioterapia pelo qual eu passei, contou com elásticos que eu colocava nos dentes a fim de voltá-los a posição original. Com o acidente, eles ficaram fora de posição e estão até hoje, se bem que houve um processo de adaptação. De qualquer maneira, eu trago algumas seqüelas: eu não mastigo mais como mastigava antigamente. Logo eu que gosto tanto de carne.
Você cumpriu direito as recomendações?
Eu fui impaciente. Chegou uma hora que eu passei a não acreditar mais nos efeitos daqueles elásticos e desisti do tratamento.
Não preciso perguntar se a recuperação foi dolorosa?
O mais doloroso foi após a cirurgia, foi nesse momento que pedi a minha esposa que tirasse esta foto.
A foto está na capa do SKYLAB VI e expressa o meu maior momento de dor.
Após o acidente você passou a levar a morte a sério ou se tornou mais íntimo dela?
Eu sempre fui íntimo da morte. Minhas músicas estão recheadas do tema. Mas a cirurgia é o momento de maior estresse. Eu sempre penso no pior.
Você acredita que seu acidente foi uma mensagem divina, tão marcante a ponto de você registrá-lo na capa de Skylab VI?
O SKYLAB VI é um disco em homenagem aos acidentes, a todos os sequelados vítimas de colisões, atropelamentos, balas perdidas. Eu vi um filme tempos atrás que muito me impressionou: CRASH, Estranhos Prazeres, do David Cronemberg, um dos meus cineastas preferidos. Ali, ele erotizava os acidentes automobilísticos. Acho que a gente pode erotizar os acidentes com balas perdidas. Quantas pessoas trazem consigo, no interior de seus corpos, balas perdidas que não puderam ser extirpadas? Levarão para o resto de suas vidas à bala alojada na cabeça, no peito, ou na medula. Permanecem vivas, em cadeiras de rodas, com próteses de todas as espécies. A música PARAFUSO NA CABEÇA que está no SKYLAB IV é um hino em louvor às próteses.
Qual seria seu último pedido na frente de um pelotão de fuzilamento?
Um minuto pros nossos comerciais.
O que escreveria na sua lápide?
Aqui jazz Rogério Skylab.
Qual mensagem você deixaria para nossos leitores?
A mensagem que eu deixo aqui aos leitores e assinantes dessa revista, é que vivemos num mundo tão louco, tão cheio de fissuras, balas perdidas, pessoas lesionadas... que nunca na história foi tão necessária a fisioterapia como tem sido nos dias de hoje. Essa idéia de reabilitação perpassa nossas cabeças (no sentido literal e no sentido figurado). Se a Europa se reergueu terminada a segunda grande guerra; se Nova York, através do seu prefeito Juliani, conseguiu superar o estado de violência em que estava banhada algumas décadas atrás... por que não pensarmos na nossa própria reabilitação? |