Entrevista com o jogador de vôlei Nalbert
 
por | Marcos Alves
 

Corrida contra o tempo...

"Fui atacar uma bola, como já tinha feito dez milhões de vezes na minha vida. Na hora que joguei os braços para trás, senti uma fisgada muito forte. Não teve nenhum movimento brusco". O capitão Nalbert ainda não sabia, mas começaria ali uma experiência única na vida dele. O lance de número dez milhões e um seria muito diferente dos
outros. Nalbert havia rompido parte do tendão do músculo supraespinhal do ombro esquerdo. Em um primeiro momento, a possibilidade de operação era pequena. Porém, ao fazer uma avaliação mais rigorosa, os membros da equipe acabaram optando pela cirurgia.
Diagnóstico: rutura de 3/4 do tendão do músculo supraespinhal do ombro esquerdo. A operação foi realizada no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, pelo médico Sérgio Checchia, especialista em ombro. A intervenção foi acompanhada também pelos médicos da seleção, Álvaro Chamecki e Ney Pecegueiro.

Vencida esta etapa restava outra, tão ou mais delicada, do ponto de vista esportivo: recuperá-lo a tempo de participar dos Jogos Olímpicos de Atenas. A missão coube ao Dr. Guilherme Tenius, fisioterapeuta da vitoriosa seleção comandada por Bernardinho.

Apesar da operação feita ter sido bem-sucedida, descobriu-se que a lesão era muito pior do que os exames apontavam. Havia grande possibilidade de o jogador não embarcar para Atenas, pois o tempo estimado para a recuperação era de quatro a oito meses.

O apoio dos companheiros foi fundamental: o técnico Bernardinho lhe garantiu que, assim que se recuperasse, sua vaga no time estaria de volta.

Foi feito um planejamento e Nalbert então começou a se submeter a um longo processo de recuperação. A princípio fazia três sessões de fisioterapia de uma hora cada, diariamente. Depois começou a se submeter à musculação, a fim de recuperar a força no braço.

Era março de 2004, e as Olimpíadas de
Atenas começariam em menos de 4 meses. Assim começou o trabalho do fisioterapeuta da seleção brasileira Guilherme Tenius, mais conhecido como `Fiapo`.

26 de maio de 2004

NALBERT CONTINUA RECUPERAÇÃO NO

BRASIL

A rotina do atacante da seleção brasileira
Nalbert não sofrerá alteração. O jogador, que se recupera muito bem de ruptura do tendão do ombro esquerdo, terá o apoio aqui no
Brasil de dois membros da comissão técnica enquanto o grupo estiver disputando os jogos da Liga Mundial, na Grécia. "Achamos melhor que o Tabach (Ricardo Tabach, assistente
técnico) e o Fiapo (Guilherme Tenius, fisioterapeuta) ficassem aqui no Brasil com o Nalbert nesse momento, dando continuidade ao trabalho que vem sendo desenvolvido. Ele precisa dessa estrutura para se recuperar o mais
rápido possível", afirmou o técnico Bernardinho. "A idéia é que o Nalbert viaje com a equipe nas etapas de São Paulo, Campo Grande e Belo Horizonte", concluiu o treinador.

O8 de julho de 2004

No treino da manhã Nalbert fez vários exercícios com uma medicine ball (bola bem mais pesada que a convencional), acompanhado de perto pela comissão técnica brasileira. "Esses exercícios servem para readaptar a musculatura dele para algumas situações importantes do jogo, fazendo com que ela trabalhe de forma mais sincronizada", explica Guilherme Tenius, o Fiapo.

(boletim da CBV, 08 de julho de 2004)

A persistência do capitão virou exemplo para os companheiros. Em Atenas, aquém de sua forma física e técnica ideal, ele entrou em quadra em raros momentos, mas continuou exercendo papel fundamental no grupo. E coroou com o título olímpico sua despedida da seleção.

11 de agosto de 2004

Seleção masculina do Brasil realiza primeiro treino em Atenas

A seleção masculina de vôlei do Brasil realizou hoje o primeiro treino em Atenas. E foi uma prática com a cara do técnico Bernardinho: bastante intensa. Todos os 12 jogadores participaram do treinamento, inclusive o meio-de-rede Rodrigão e os pontas Nalbert e Giovane, que já se recuperaram de suas contusões. Rodrigão teve um princípio de fratura por estresse na perna direita e ficou fora das finais da Liga Mundial 2004. Na mesma competição, Giovane sentiu dores na panturrilha direita e foi poupado na semifinal e final.

O capitão Nalbert operou o ombro esquerdo no dia 22 de março deste ano. Quatro meses depois, voltou às atividades normais de treino. "O ombro está bom. A cada dia vai melhorando. Claro que dói um pouco e ainda vai doer por um bom tempo, mas isso é normal", disse Nalbert.

O ponteiro afirmou que o técnico Bernardinho pode contar com ele para todas as partidas nos Jogos de Atenas. "Tenho condições de participar integralmente dos treinos e jogos.

A primeira parte da guerra, que era estar aqui, foi vencida", disse Nalbert.

A seleção brasileira estréia na Olimpíada contra a Austrália neste domingo. Na seqüência da primeira fase, enfrenta Itália.

A partir daí, a história é conhecida. O Brasil levou o ouro olímpico, e Nalbert, se não participou de todos os jogos, teve papel determinante motivando o grupo, que para Nalbert era especial.

''Não sei se este é o melhor time de todos os tempos. Mas certamente é o melhor grupo de todos os tempos".

De volta ao Brasil Nalbert desembarcou com a medalha no peito e uma decisão na cabeça. Iria encerrar a carreira na quadra e seguir jogando vôlei de praia. O anúncio foi feito no aeroporto de Guarulhos. Na época, ele disse:."Dá tristeza, mas com certeza continuo a defender o Brasil em Pequim (2008), na praia". Chegou a disputar uma temporada pelo Banespa, e deixou a quadra como campeão da
superliga pelo Banespa.

F&T - Você ganhou tudo que tinha para
ganhar no vôlei de quadra. Dinheiro, títulos, notoriedade. Tudo conquistado com muita garra, que é uma de suas características. Quais suas pretensões na areia? O objetivo é jogar uma nova Olimpíada?

N - Meu grande sonho ''e chegar a uma olimpíada jogando na praia, mas sei que será muito difícil... O nível das duplas é muito alto e como cheguei agora na praia tenho poucos pontos no ranking mundial o que acaba
atrapalhando muito nos critérios de pontução.

Bem capitão, a estrada é longa e difícil, mas você tem experiência nisso.

F&T - A fisioterapia acrescentou competitividade aos esportes?

N - Acho que, no que diz respeito à prevenção de Lesões sim... Hoje em dia temos

muito mais condição física de suportar uma atividade de alto nível.

F&T - Fale da Lesão antes da Olimpíada de 2004

N - Foi uma rutura de tendão de um músculo do ombro esquerdo 5 meses antes do início da olimpíada... Foi muito dura a recuperação, mas valeu a pena todo o esforço!

F&T - Qual foi a reação ao saber que estava selecionado para
Atenas?

N - Foi uma sensação de vitória muito grande! De que valeu a pena todo o esforço e superação pra realização de um sonho...

F&T - Como é acreditar numa recuperação tendo contra si o tempo, a gravidade da lesão, o desânimo...

N - Desânimo nunca! Não tinha tempo pra isso... Duro era ver o tempo passando, a competição chegando e o ombro ainda
muito distante do ideal... Existem

altos e baixos numa recuperação assim... Mas foi uma vitória pessoal muito grande porque a lesão era realmente muito grave!

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O Nalbert teve uma rutura de 3/4 do tendão do supraespinhoso do ombro esquerdo á 5 meses das olimpíadas de Atenas e o único tratamento possível pra que ele pudesse tentar jogar as olimpíadas era a cirurgia.

Foi feita uma sutura do tendão e ele ficou imobilizado por 4 semanas devido ao tamanho da lesão, tempo muito longo para a reabilitação.

Após e retirada da imobilização não utilizei nenhum, protocolo pois a evolução era diária e corríamos contra o tempo sempre respeitando os prazos de cicatrização fisiológica e determinados pelo cirurgião.

Foi feita uma mobilização passiva, para ganho de amplitude de movimento e logo a seguir mobilização assistida e ativa dentro e fora d´agua. O trabalho de fortalecimento muscular começou após 4 semanas de exercícios e a evolução foi extremamente satisfatória devido também à determinação do atleta, que em nenhum momento teve dúvidas de sua recuperação.

Quatro meses após a cirurgia o atleta voltou á um jogo oficial e em cinco meses estava apto a participar das olimpíadas de Atenas, sagrando-se Campeão Olímpico.

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Então galera, este é um resumo do que foi feito na recuperação do Nalbert e devemos lembrar que em nenhum momento tivemos complicações o que certamente colocaria em risco a participação do atleta na competição.

Espero ter podido contribuir de
alguma forma, e no que puder
ajudar estarei sempre à disposição.

Um grande abraço,

Guilherme (mas conhecido como Fiapo), fisioterapeuta da Seleção Brasileira de vôlei adulta masculina.

Email: guitenius@uol.com.br

 
 
Revista Fisio&terapia 2006