Lars Grael fez história no iatismo. Além de duas medalhas de Bronze nas Olimpíadas de Seul 1988 e Atlanta 1996, ele ainda foi penta-campeão sul americano, 10 vezes campeão brasileiro e campeão de tradicionais semanas de vela, como a de Kiel, na Alemanha. Em 1998, ele sofreu um acidente no mar e teve a perna direita amputada. Fora das competições, foi convidado pelo então presidente da república Fernando Henrique Cardoso para ser Secretário Nacional de Esportes. No final do governo, foi convidado pelo Governador de São Paulo Geraldo Alckmin para assumir a Secretaria Estadual da Juventude, Esporte e Lazer, cargo que ocupa até hoje. Atualmente Lars Grael tem uma agenda cheia na secretaria, mas ainda encontra tempo e disposição para continuar competindo nas classes Star e Oceano, sempre conquistando títulos e se destacando nas raias.
O acidente.
Era primavera de 1998 no mar de Vitória, Espírito Santo e uma lancha em alta velocidade se choca com o veleiro do iatista Lars Grael. Ele é jogado na água e, em questão de segundos, vê o sonho de disputar mais uma olimpíada ser desfeito quando a hélice atinge sua perna direita. O acidente é notícia no país inteiro. Os brasileiros a princípio decepcionados, agora torcem pela recuperação do atleta. Talvez o maior desafio da vida dele.
Fisio - É possível uma comparação com uma regata em que a vitória é difícil e improvável, mas a vontade de vencer é tanta que leva a superar os próprios limites?
Lars Grael - Sim, é totalmente possível. Logo após o acidente eu tinha em mente que poderia acontecer de eu não conseguir mais velejar e foi tanto ao contrário que hoje eu até participo de competições e fui recentemente Campeão Sul-americano após seis regatas realizadas em Buenos Aires, entre os dias 05 e 09 de Janeiro de 2005. Isso prova que existem sim as provas difíceis e todas elas são improváveis, mas acredito que superar os próprios limites é algo também mais do que provado, isso eu posso dizer.
A superação.
O lento processo de readaptação para sobreviver limitado à condição de amputado acabou sendo um aprendizado rico e gradual. Durante a luta para recuperar os movimentos Lars Grael experimentou sucessivas conquistas e frustrações. Gradualmente, tomou gosto por este novo tipo de vitória - conquistada à custa de muito esforço, força de vontade e perspicácia.
Fisio - O senhor disse que logo depois do acidente se viu numa encruzilhada: sentir-se fragilizado e tentar fugir da realidade ou já que estava mesmo exposto, assumir àquela condição. Sabemos que escolheu a segunda opção. Qual foi ou quais foram os motivos que o levaram a isso?
Lars Grael - O motivo pelo qual eu escolhi a segunda opção foi a minha família, minha esposa, os meus filhos e todos que torciam por mim, que me deram apoio e me colocaram em primeiro plano em suas vidas quando aconteceu o acidente.Talvez se eu tivesse pensado em todo o carinho que a população do Brasil, que meus amigos, atletas e família possuem sobre minha pessoa e se eu parasse para pensar em tudo de bom que eu tinha, jamais teria pensado em duas opções. Mas infelizmente quando aconteceu o acidente eu, como todo ser humano, ás vezes me sentia frágil. Mas graças a minha força e o respeito e carinho de todos eu consegui superar.
Fisioterapia.
Nesse processo Lars Grael teve companheiros valorosos. Com a família e os amigos conseguiu paz, com a mulher, coragem. Encarou o desafio que a vida lhe apresentava e foi aí que conheceu a fisioterapeuta Rosana Ravagnani. Ela fazia parte da equipe do Hospital Albert Einsten, onde ficou internado depois do acidente.
Fisio - Lars Grael declarou em entrevista que levou um tempo até "digerir" o acidente e a amputação, e que teve um início de depressão, levando um tempo até decidir retomar a vida e encarar os fatos. Você acompanhou esse processo? Quando sentiu que ele realmente estava disposto a recomeçar?
Rosana - Acompanhei o processo de reabilitação do Sr. Lars Grael desde sua internação na UTI do Hospital Albert Einstein, logo após sua transferência de Vitória-ES para São Paulo, até seu embarque de retorno a Niterói (aproximadamente 40 dias durante 3-4 horas diárias), além do acompanhamento à distância e algumas intervenções quando ele voltou a morar em São Paulo há três anos. Foi um processo longo, "assustador" quando se pensa em um atleta olímpico que passaria a ter limitações dentro de sua atividade esportiva. Nos primeiros dias ele reagiu com surpresa, choque, tristeza; raros momentos de revolta. A insuficiência respiratória e as dores das lesões causadas pela hélice da lancha em sua coxa esquerda, braço direito e cabeça, além da dor fantasma fortíssima, eram fatores limitantes (não podemos esquecer do excelente acompanhamento médico que ele recebeu). A partir do momento em que conseguimos conversar com clareza e honestidade, estabelecendo metas, o tratamento passou a se desenvolver com facilidade e muita colaboração do paciente. Para o Lars, todos os dias tínhamos de superar o resultado atingido no dia anterior, apesar de serem terapias longas, a força de vontade sempre vencia o cansaço.
Fisio - Em geral qual o protocolo de tratamento nestes casos?
Rosana - Nos casos de amputações de membros inferiores, inicia-se com uma avaliação global do paciente, na qual se observa a condição de força muscular global, as amplitudes de movimento articulares, as condições do coto, a independência para mudanças de decúbitos e uso de meios auxiliares para marcha. Orienta-se o paciente quanto às suas limitações, dificuldades e capacidades a serem exploradas até o momento de adaptação a uma prótese. Em seguida, trabalha-se com os objetivos de prevenir deformidades, orientar posicionamento adequado no leito e fora dele, fortalecer a musculatura global, treinar equilíbrio e marcha e adaptar-se à prótese (quando possível). Dentre os objetivos da reabilitação do paciente amputado, a protetização deve sempre estar incluída, mas não podemos esquecer que reabilitar é muito mais do que adaptar o paciente a uma prótese. Reabilitar é reintegrar o indivíduo à sociedade, o que, no caso citado, foi realizado de forma exemplar, visto que o paciente se adaptou à nova condição, ocupando papel de destaque nas áreas profissional e esportiva, apesar de ainda não ter se adaptado à prótese devido às condições do coto.
Aprendizado.
"Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."
Fernando Pessoa
Fisio - O senhor meio que desconfiava das pessoas que lhe diziam que voltaria a ter uma vida quase normal. Sabia, no íntimo, que não seria bem assim. No entanto sua vida começou a mudar quando estabeleceu novos parâmetros de conforto, aprendeu a ser feliz "com as pequenas coisas". Fale um pouco disso.
Lars Grael - Eu não acreditava nas pessoas por que eu tinha em mente que elas passavam coisas boas porque tinham dó de mim. Achava que elas não sabiam de nada por que não tinham passado por aquilo. Mas comecei a olhar por outro parâmetro quando tive contato com gente que tinha sofrido o mesmo problema que eu, e um exemplo foi a enfermeira que cuidou de mim. Ela também tinha perdido uma perna e usava uma prótese, se ela não tivesse me falado e mostrado eu não acreditaria. Foi a partir de exemplos como esse que passei a enxergar o meu problema com outros olhos e consegui ser feliz, vendo que ela mesmo jovem e muito bonita não perdeu o brilho dos seus olhos pela falta de um membro do corpo.
Relação fisioterapeuta x paciente.
Fisio - Como o senhor encarou a rotina de exercícios de fisioterapia?
Lars Grael - Eu encarei e ainda encaro como algo que somente tem a acrescentar em minha vida, tenho que ter consciência de que preciso dos exercícios para melhorar o meu desempenho. Preciso colocar toda a força somente em uma perna, é um trabalho importantíssimo até mesmo para a prática da vela. O meu único problema quanto aos exercícios é que minha carga horária de trabalho é extensa e às vezes não sobra tempo para fazê-los.
Fisio - O que a recuperação de Lars Grael significa para a fisioterapia brasileira?
Rosana - A recuperação de Lars Grael significa muito não só para a fisioterapia, mas para o esporte brasileiro. Deixamos de vê-lo competindo na classe Tornado, mas passamos a observar suas vitórias na classe Star (Campeão Sul-Americano de 2005); passamos a ter um grande administrador público, primeiramente em Brasília e agora em São Paulo. Temos um ser humano corajoso, forte, que não se deixou abater em nenhum momento, apesar das dores, das perdas. A fisioterapia foi apenas um instrumento auxiliar durante todo o processo. O paciente foi exemplar: determinado, aguerrido, um verdadeiro Herói Olímpico no sentido pleno dessa expressão.
A ligação com o mar.
O patriarca Preben Schmidt originalmente praticava o hipismo. Mas ao chegar ao Rio de Janeiro no princípio do século passado e se deparar com a Baía da Guanabara, logo comprou um barco e começou a velejar. A paixão passou para os filhos Axel, Erik, Ingrid e Margarete que por sua vez legaram também aos seus descendentes o amor pelo mar. Niterói foi o ponto de partida para os irmãos Torben e Lars Grael entrarem para a galeria dos maiores velejadores brasileiros de todos os tempos.
Fisio - A volta às competições de Vela foi algo especial? O senhor imaginava que isso fosse acontecer um dia?
Lars Grael - Foi algo mais do que especial. Logo quando sofri o acidente eu imaginava tudo de negativo, que minha esposa não teria mais desejo por mim, que eu não iria mais velejar, passaram várias coisas em minha cabeça. Com o passar do tempo eu vi que era tudo ao contrário e com o carinho e apoio da minha família e amigos consegui desviar minha mente e focar somente nas coisas boas. Por fim, voltei a velejar.
Fisio - Em que categoria o senhor compete agora e como tem sido o desempenho?
Lars Grael - No momento estou competindo na categoria Star. Antes do acidente eu competia na Tornado, que é a minha categoria predileta, mas a Tornado exige muito dos movimentos rápidos por causa da velocidade e a perda da perna me dificultou quanto a isso. O meu desempenho na vela tem sido excelente, não como era antigamente por que tenho que me equilibrar somente com uma perna. Ainda não uso prótese devido à falta de tempo para me adaptar a ela. Minha perna foi amputada acima do joelho devido à quantidade de ferimentos e ficou somente o coto, isso dificulta o encaixe da peça, mas com dedicação e paciência posso reverter este quadro. Sei que ainda posso muita coisa, o fato de não ter a perna não me impediu de fazer o que mais gosto. Hoje velejo principalmente por prazer, e não por competição.
Mensagem.
"Faria tudo de novo, não me arrependo de nada. O importante é viver intensamente, aproveitar a vida a cada minuto. Problemas e situações difíceis acho que todos passam.
O importante é ter o que contar depois, saber passar as coisas como um aprendizado, uma lição de vida. E poder sorrir hoje de tudo de ruim que tenha acontecido um dia."
Fisio - Como é sua rotina e quais são os planos para o futuro?
Lars Grael - O meu dia-dia é agitado, agora como secretário da juventude, esporte e lazer trabalho com o esporte na prática e no papel. Isso me deixa glorificado por que o Brasil é muito rico em atletas mas, precisa de espaço e verba para poder levar para a população as atividades esportivas à qualquer lugar.
A vela seria um dos casos por que muitos dizem que é um esporte de elite, eu sempre pensei o contrário por que passei muitas dificuldades no início de minha carreira como velejador. A Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer desenvolveu o projeto Navega São Paulo, que leva a vela para crianças matriculadas na rede pública de ensino de comunidades carentes, contribuindo para o esporte e levando bem-estar à toda sociedade.
Fisio - Qual recado você tem para os colegas que estejam tratando de pacientes com sintomas parecidos?
Rosana - Sugiro aos fisioterapeutas que trabalham com pacientes amputados que sejam extremamente sinceros com seus pacientes em relação às dificuldades que um processo de reabilitação dessa patologia proporciona. Não podemos abordar o paciente assegurando que ele vai se adaptar facilmente a uma prótese, que não terá dores, quedas, angústias. A partir do momento em que o fisioterapeuta conhecedor do processo de reabilitação de um amputado for sincero e seguro, o paciente passará a confiar nele e a recuperação ocorrerá com mais facilidade.
Dra. Rosana Ravagnani Campedelli
Fisioterapeuta do Centro de Reabilitação do Hospital Israelita Albert Einstein
Formação Acadêmica: Fisioterapia UNESP Presidente Prudente - SP
Especialização:
Traumatologia Esportiva - UNIMEP Piracicaba - SP
Disfunções Músculo-Esqueléticas - CAP- HCFMUSP São Paulo - SP
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