Entrevista com Jorginho do Beach Soccer
 
|por | Marcos Alves
 

Jorge Augusto Gabriel descobriu ou foi descoberto pelo futebol de areia, também chamado de beach soccer, pouco antes de um torneio internacional em 1994, ano do tetra no futebol de campo. Ele lembra que estava numa fase de indefinição. Jogava nas divisões de base do Flamengo e também estudava. Decidiu, aos 16 anos se dedicar apenas aos estudos. Mas quando recebeu o convite para disputar um torneio internacional na areia teve um desempenho tão bom que não parou mais. "Quando as viagens ficaram mais numerosas resolvi abandonar os estudos para me dedicar apenas ao esporte".

Na época, o futebol de areia começava a ganhar prestígio, junto com a euforia pela conquista da Copa dos EUA. Além de Romário, Cafu, Bebeto e outros craques do futebol a torcida passou a acompanhar também as jogadas de alta categoria na praia. Hoje, nomes como Jorginho, Nenêm, Júnior Negão, Benjamim e outras feras são conhecidos aqui e lá fora, principalmente pelos adversários. Jorginho é um jogador consagrado. Foi 9 vezes campeão mundial com a seleção brasileira, 3 vezes eleito o melhor jogador do planeta (a última foi o ano passado) e pentacampeão brasileiro. Boa praça, fala de forma descontraída e confessa não ter muita paciência para rotinas de exercícios. "Fico ansioso para estar logo em quadra, disputando os jogos."

Paraense de nascimento, Jorginho completa 31 anos dia 19 de outubro. Joga por São Paulo e também na seleção brasileira. É um atleta que tem acompanhamento sistemático da comissão técnica das equipes. Faz fisioterapia em uma clínica do Rio de Janeiro que tem convênio com a confederação brasileira. O jogador diz que o trabalho é bom, dá resultados e o ajuda a se manter em forma. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos atletas que disputam competições oficiais no Brasil. Ele mesmo começou sem nenhum profissional por perto e diz que tem sorte por ter a "canela dura", acostumada às pancadas dos adversários.

Jorginho ganhou massa muscular onde sempre se sentiu mais à vontade. E também foi na praia que teve o primeiro contato com a fisioterapia. "Isso em 95, 96, sempre depois de alguma lesão durante as competições. Mas no dia-a-dia não tinha não." Seria óbvio supor que o atleta teria o primeiro contato com a fisioterapia no Flamengo, onde ele passou quatro anos jogando nas divisões de base. Nessa época grandes ídolos rubro-negros já haviam passado pelas mãos de especialistas em condicionamento físico, praticamente toda a geração de Zico, Adílio, Moser e tantos outros que surgiram na fábrica de craques da gávea nas décadas de 80 e 90. Jorginho estava lá nessa época.

Em 2001 sofreu uma lesão que o afastou das competições por cerca de quatro meses. "Lembro que eu dei um balão no cara. Fominha do jeito que eu sou fui dar outro e aí...me cortaram". Ele usa uma expressão pouco comum no palavreado da mídia esportiva para faltas ou agressões que resultam em faltas. O 'corte' foi uma pancada na perna direita que rompeu o músculo adutor. "Uma dor que eu nunca mais quero sentir de novo", disse o atleta.

Vieram a dúvida e a preocupação com os compromissos profissionais. Estava inscrito para uma competição no México, tinha viagem marcada para dali uma semana e meia. O tempo era curto demais para uma recuperação plena. Mesmo assim o fisioterapeuta que Jorginho procurou para se tratar tentou encorajá-lo a se apresentar. "Eu fiz um tratamento rápido, senti uma melhorazinha. Mas não dava nem pra correr."

Jorginho viajou e na primeira partida saiu com menos de 2 minutos. Voltou para o Rio e aí de fato começou a se cuidar. "Era obrigado a fazer fisioterapia", diz meio sem graça. Pouco mais de 2 meses depois foi voltando aos treinos. Mais um pouco e estaria recuperado. Mas numa bicicleta, jogada que exige muita elasticidade, sentiu de novo a contusão. "Aí acabou tudo", Jorginho definiu assim a piora no quadro.

Jorginho diz que nesses momentos a pressão sobre o jogador é muito grande. Os grandes torneios também comportam grandes interesses. E há muita expectativa sobre o atleta que está em tratamento, se vai jogar, se não vai jogar, quanto tempo vai ficar de fora, etc. "É bastante complicado", afirma. De qualquer forma tem consciência que exagerou ao tentar dar a bicicleta no treino. Por causa desse descuido, como ele próprio diz, ficou mais um mês e meio "parado".

A fisioterapia evoluiu muito nos últimos anos, especialmente a fisioterapia de competição. "Se fosse pela fisioterapia 'antiga', acho que ficaria uns 6 meses fora." Ele diz que usou muita piscina e alongamentos. "Incomoda bastante, dói muito, principalmente quando eu andava de lado na piscina", relata. A contusão foi numa região próxima do púbis, por isso o incomodava. Mas os resultados do método eram animadores e ajudavam a vencer a resistência do próprio Jorginho. "A cada dia que eu via que estava melhorando, me animava a voltar na sessão seguinte", diz.

Na visão dele essa é a grande vantagem de tratar a contusão sem "mascarar" a dor. A dor que ele sentia ao fazer os exercícios na piscina ia diminuindo com a melhora. Outro fator que ele destaca foi a variedade de movimentos. "Todo dia tinha uma coisa diferente. "Segundo o jogador, o fisioterapeuta que lhe atendeu nesta época, Dr. Fábio Marcelo conhecia os limites." Ele sabia perfeitamente até onde eu aguentaria. Tudo em planilha, planejado, muito bem feito", completa.

Depois de 4 meses de afastamento vieram os testes e a alegria de não sentir nada nos trabalhos com bola. Jorginho voltou à ativa em grande estilo e totalmente recuperado. Mesmo assim nas primeiras competições depois da volta se sentia meio inseguro. "Ficava apreensivo com os carrinhos e jogadas mais duras, depois isso também foi passando" lembra. De tudo isso ficou o aprendizado. "Hoje em dia me cuido mais, alongo, sei o que posso e o que não posso fazer."

Jorginho deixa um recado nesse mês de outubro em que se comemora o dia do fisioterapeuta. "Nós atletas precisamos dos fisioterapeutas, as pessoas precisam dar mais valor, precisamos de vocês para exercer nossa atividade". Está dado o recado.

VOCÊ SABIA?
O futebol de praia, ou beach soccer, mistura as regras do futebol com as do futsal. É disputado em quadras de areia, com cinco jogadores de cada lado. As partidas dividem-se em três tempos de 12 min, com 3 min de descanso entre eles.

O Brasil ganhou 9 das 10 edições do Mundial de Beach Soccer realizadas até antes da Fifa começar a organizar competições oficiais. Portugal ganhou em 2001 e no mundial deste ano, realizado em maio no Rio, o vencedor foi a Espanha. Mesmo com toda a popularidade, o beach soccer vai ficar de fora dos Jogos Panamericanos de 2007. A Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa) incluiu cinco esportes não olímpicos no calendário do Pan: Futsal, boliche, esqui-aquático, patinação (artística e velocidade) e caratê, mas um dos esportes prediletos do carioca não teve a mesma sorte. Como resumiu Jorginho ao jornal Folha de São Paulo:

"Seria muito importante para o futebol de areia estar presente em um evento do porte de um Pan-Americano, mesmo que fosse como esporte exibição. Seria um grande salto rumo à profissionalização esporte. É uma pena".

 
 
 
Revista Fisio&terapia 2006