Entrevista com Índia do Vale Tudo
 
por | Eduardo Tavares / Fotos | Oston Mendes
 

Os tempos estão mudando e elas também. As mu-lheres estão independentes, seguras e, principalmente, mais fortes. Os arranhões e puxões de cabelo ficaram para trás. A cada dia, cresce o número de mulheres que vem buscando reconhecimento e experiência nos ringues antes só habitados pelo sexo oposto. Lutar sempre foi coisa de homem? Para Ana Maria Gomes Soares, conhecida como Índia, a
resposta é NÃO! Com 28 anos, essa baiana guerreira do Vale Tudo, é disciplinada, determinada, acumula títulos em sua trajetória como lutadora e,
acima de tudo, é vaidosa.

Como foi seu primeiro contato com a luta?
Eu fazia Biomedicina em Marília, SP e malhava numa academia que
tinha Jiu-Jitsu. Me interessei vendo os movimentos corporais executados pelo professor, eu sabia que poderia fazer aquilo. Comecei a treinar e depois de 1 ano e meio, participei de uma competição, uma luta-
casada com uma atleta mais graduada que eu. Ganhei a luta finalizando-a com um arm-lock.

Foi o impulso para sua profissionalização?
Foi uma sensação maravilhosa. Percebi que queria sentir aquela adre-nalina para o resto da vida. Tranquei a faculdade, pois sabia que com 22 anos, havia começado tarde a lutar. Procurei acelerar o processo buscando o profissionalismo.

E as dificuldades iniciais?
Treinei até os 5 anos de gravidez. Quando minha filha Rayra (Guerreira em Tupi Guarany) estava com apenas 4 meses, eu já havia participado do campeonato baiano de jiu-jitsu. Venci as 5 lutas e ganhei o campeonato. Nesta época, mudei para Salvador para treinar forte. Hoje, Rayra está com 4 anos de idade.

Como foi seu ingresso no vale-tudo?
Assistindo a um evento do campeão Minotauro, realizado na Bahia, e observando alguns amigos treinando para o vale-tudo, decidi embarcar na modalidade. Comecei a treinar Box, Jiu-jitsu, Luta livre, Wrestling e Muay Thai. Quando me senti preparada, vim para o Rio treinar na BTT
(Brazilian Top Team) com meus professores, os campeões José Mario Sperry e Murilo Bustamante. Depois de 1 ano aqui no Rio, o Minotauro me deu a oportunidade de participar do Minotauro Fight, em Salvador. Venci minha luta aos 45 segundos.

Sentia algum preconceito?
Quando entrava na academia, percebia olhares diferentes dos homens, “o que ela está fazendo aqui?”, mas quando saia, o olhar havia mudado, rolava o respeito pelo meu profissionalismo.

Como aconteceu sua atual lesão?
Estava me preparando para fazer um vale-tudo no Japão, em 22 de dezembro. Durante o Submission realizado em Botafogo, aqui no Rio, rompi o ligamento do joelho direito, LCA (Ligamento Cruzado Anterior). Tive que me submeter a uma cirurgia, que por sinal, foi um sucesso, com
Dr. Cláudio Grossi, que já operou vários atletas.

Como tem sido o tratamento fisioterapêutico?
Estou com 3 meses e meio de recuperação, fazendo Hidro, Eletro e fortalecimento. Toda parte de hidro, faço com o Dr. José Carlos Brandão, fisioterapeuta responsável pela AABB Rio e o Clube do Caiçaras.

E as sessões?
A piscina, comecei com 3 semanas do pós-operatório, na época, eu não conseguia sequer pisar no chão. Faço a hidro, 3 vezes por semana e nado com pé de pato, 2.000 metros, outras 3 vezes para fortalecer o ligamento. Sempre respeitando um cronograma.

Qual a importância da fisioterapia na piscina?
Para mim tem sido fundamental, pois auxilia na parte de oxigenação muscular. Tive uma grande atrofia na perna direita, uns 4 cm.

Você tem preocupação com sua estética?
Não sou fresca, mas sou vaidosa.

Até que ponto o assédio te incomoda?
Tenho um problema espacial. Não gosto quando um homem invade meu espaço, ou me toca sem autorização.
Isso já aconteceu alguma vez?
Aconteceu numa boate em São Paulo, estava com algumas amigas, quando me abaixei, um cara me mordeu por trás. Tive que me defen-der. Ficou ruim pra ele!

Um hobby?
Gosto de dançar.

Música?
Reggae e Maracatu.

Sua meta?
Lutar o mundial da Califórnia, em agosto.

Um sonho?
Competir até meus 35 anos.

Uma mensagem para nossos leitores?
Para esforço, compromisso e dedicação, não existe meio termo.

 
 
 
Revista Fisio&terapia 2006