Entrevista com Herbert Vianna
 

Células-tronco
O Brasil discute o futuro das pesquisas

 
por | Marcos Alves
 

Á medida que experiências bem sucedidas com células-tronco vão sendo divulgadas, cresce o lobby dos que defendem a liberação das pesquisas. A terapia celular desperta o interesse de pacientes e cientistas, mas ainda está em fase regulatória. Não é por acaso que boa parte dos grupos que defendem a liberação das pesquisas com embriões é formada por parentes e vítimas que sofreram algum tipo de mutilação ou restrição física.

Falta muito para saber o real alcance dessa nova tecnologia. Mas é cada vez mais visível que, se ainda não chegou ao cotidiano das pessoas, é por uma questão de tempo. Países da Europa e de outras partes do mundo, inclusive o Brasil, já possuem centros de pesquisas com células tronco para fins terapêuticos.

O que se discute agora é a legislação pertinente ao assunto. Recentemente em Brasília, vários grupos fizeram manifestação pública em favor da liberação das pesquisas. O apoio ganha contornos ainda mais visíveis com a participação de artistas como os músicos Herbert Vianna e Marcelo Yuka, e pessoas conhecidas do público, como a técnica de ginástica e deputada estadual no Rio de Janeiro, Georgette Vidor.

Lei de biossegurança
O assunto está sendo discutido no congresso. Em março de 2004, a Câmara dos Deputados não liberou as pesquisas com células tronco em nosso país. O projeto foi para o Senado e as discussões e debates em torno da votação têm sido acalorados.

Enquanto a Lei de Biossegurança não é votada, surgem novidades. O governo federal anunciou, no início de fevereiro, que vai liberar R$ 12 milhões para pesquisas envolvendo células tronco adultas.

O trabalho envolverá 1.200 pacientes e cerca de 40 instituições de saúde e pesquisa espalhadas pelo país. Mas apesar da boa vontade do governo, a aprovação no congresso ainda é uma incógnita.}

A matéria poderá entrar em votação em Brasília ainda no mês de março. Há forte resistência de setores ligados à igreja, e isso certamente vai influenciar a decisão da Câmara dos Deputados. E a recente e inesperada eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da casa, um político de perfil conservador, é um claro indício de que a polêmica vai continuar.

No dia 06 de outubro do ano passado, o projeto de Lei de Biossegurança, que trata do plantio e comercialização de transgênicos e da pesquisa com células-tronco, foi aprovado no plenário do Senado.

Além de manter a possibilidade do plantio de transgênicos no Brasil, o texto permite que os cientistas brasileiros possam usar em suas pesquisas células-tronco de embriões humanos. Os embriões utilizados devem estar congelados e ter, no mínimo, três anos de estocagem.

O projeto veda, no entanto, a clonagem humana e a produção de embriões para a retirada de células-tronco, com o objetivo terapêutico. Ou seja, só permite o uso de embriões que seriam, necessariamente, descartados por clínicas de fertilização.

A Lei de Biossegurança chegou a ser aprovada pela Câmara dos Deputados, mas não tratava da pesquisa com células-tronco. Com isso, terá obrigatoriamente de voltar para a Câmara, antes de seguir para sanção do presidente Lula.

Apoio
O pai do músico Herbert Vianna, Hermano Vianna, acredita que a terapia com células-tronco pode diminuir as limitações hoje enfrentadas pelo filho. "Sou a favor dessas pesquisas assim como sou a favor de tudo que diz respeito a avanços científicos e tecnológicos. O que seria da humanidade sem Newton, sem Copérnico, Santos Dumont e tantos outros?" Ele diz também que a regulamentação do setor merece toda a atenção das autoridades, mas o controle deve ser feito de forma inteligente. "As comissões de ética cuidam disso com muita proficiência", explica.

Para Hermano Vianna, o assunto deveria ser levado ao conhecimento do público e melhor discutido com a sociedade.

Para a deputada estadual Georgette Vidor, o uso de células embrionárias para fins terapêuticos representa a esperança de cura para as pessoas acometidas por patologias como Parkinson, Alzheimer, cardiopatias, doenças renais crônicas, distrofias musculares, lesões medulares entre tantas outras. "Essas células contribuirão para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. As células embrionárias são uma fonte de vida, e a terapia celular é uma das principais possibilidades de cura para essas patologias." Para ela, é preciso distinguir clonagem terapêutica de clonagem humana.

Outro defensor das pesquisas é Dejalma Santa Ana, pai do músico Marcelo Yuka. Marcelo perdeu parte dos movimentos depois de ter levado seis tiros durante um assalto no Rio. - "Sou favorável à liberação das pesquisas por vários motivos, entre os quais, por acreditar que a terapia com células-tronco hoje é tão importante como foram os primeiros ensaios com vacinas e antibióticos. Já imaginaram o mundo hoje sem vacinas e antibióticos? Já imaginaram o mundo hoje sem transplantes de órgãos?", pergunta.

O que são células-tronco
Por serem células embrionárias que ainda não possuem características definidas - as células-tronco podem recompor tecidos danificados e tratar um infindável número de problemas, como alguns tipos de câncer, o mal de Parkinson e o de Alzheimer, doenças degenerativas e cardíacas ou até mesmo fazer com que pessoas que sofreram lesão na coluna voltem a andar.

Mas as pesquisas em torno do assunto ainda estão em fase inicial. É cedo para saber o real alcance dessa tecnologia, e eventuais problemas que surgirem. E aí está a briga dos cientistas - conseguir apoio do governo e espaço dentro da lei para manipular embriões em busca de células-tronco.

Basicamente, há dois tipos de células-tronco: as extraídas de tecidos maduros de adultos e crianças ou as de embriões. No caso das extraídas de tecidos maduros - como, por exemplo, o cordão umbilical ou a medula óssea, as células-tronco são mais especializadas e dão origem a apenas alguns tecidos do corpo.

Já as células-tronco embrionárias cada vez se mostram mais eficazes para formar qualquer tecido do corpo. Esta é a razão pela qual os cientistas desejam tanto pesquisar estas células para possíveis tratamentos. O problema é que, para extrair a célula-tronco, o embrião é destruído.

Segundo os cientistas, seriam usados apenas embriões descartados pelas clínicas de fertilização e que, mesmo se implantados no útero de uma mulher, dificilmente resultariam em uma gravidez. Ou seja, embriões que provavelmente nunca se desenvolverão.

Porém, essa idéia esbarra na oposição de setores religiosos e grupos anti-aborto que consideram que a vida começa no momento da concepção. Para tornar a questão ética ainda mais complexa, o implante de células-tronco seria mais eficaz se extraído de um embrião clonado do próprio paciente, pois evitaria o risco de rejeição. Esse procedimento só não serviria para pessoas que apresentam doenças genéticas.

Estágio das pesquisas
O implante de células-tronco adultas no cérebro de vítimas de acidente vascular cerebral está sendo desenvolvido por médicos pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Pró-Cardíaco.

A dona-de-casa Maria das Graças Pomaceno, de 54 anos, sofreu um derrame em agosto do ano passado e teve melhora repentina depois da terapia. Ela é a primeira voluntária de uma experiência que englobará outras 14 pessoas. O teste, de fase 1, foi concebido para avaliar a segurança da terapia, mas os médicos consideraram o resultado bastante promissor no que diz respeito à eficácia.

Em entrevista ao telejornal Bom Dia Brasil, da Rede Globo, o coordenador da pesquisa, Hans Fernando Dohman, do Hospital Pró-Cardíaco, disse que compreende a ansiedade que uma notícia como essa é capaz de desencadear, mas explica que até para os cientistas, ainda há muitas incertezas.

"Essa é a ansiedade de todos, na verdade", disse o médico, quando indagado a respeito de quando a técnica poderá ser aplicada amplamente. "A gente tem que compreender que foi o primeiro passo de uma longa história.

Nós vamos precisar, tranqüilamente, de cinco a sete anos para completar esse desenvolvimento e ter todas as respostas que a gente precisa para oferecer isso com segurança", completou.

Na mesma entrevista, o cientista fez projeções para o futuro. Afirmou que o potencial das células embrionárias é maior do que o das células-tronco adultas.

Mas alertou que é preciso aprender a controlar essas células antes de levá-las para o ser humano.

Sobre a legislação, o Dr. Dohman disse que o projeto aprovado no Senado é bastante interessante para o país. "Eu acho que esse é um limite razoável entre a necessidade do avanço do tratamento e a manutenção da vida."

Fisioterapeuta do Herbert Vianna.

Revista Fisio&terapia - Qual foi a patologia do Herbert Vianna?

Fernanda Baseggio - O paciente Herbert Vianna deu entrada aqui no Centro Internacional de Reabilitação Nilton Petrone - R9 em março de 2004, com o diagnóstico clínico de Traumatismo Crânio-Encefálico e Traumatismo Raqui-Medular.

F&T - Como é lidar com a responsabilidade de cuidar de uma pessoa conhecida, um ídolo de milhões de pessoas?

Fernanda - Penso que é grande a responsabilidade do Fisioterapeuta com os pacientes, não havendo nenhum motivo para distinção entre eles, inclusive a notoriedade. Levamos em consideração a ocupação do Herbert (Músico), estando sempre atentos para as suas necessidades para que as mesmas possam ser atendidas dentro da atividade privativa da Fisioterapia.

F&T - Até que ponto a atitude de Herbert, se prontificando a colaborar, mudou para melhor o tratamento aplicado?- Em geral qual o protocolo de tratamento nestes casos?

Fernanda - O Herbert sempre se apresentou disposto e cooperativo, colaborando assim, com a indução terapêutica que está de acordo com as deficiências, limitações funcionais e incapacidades que ele apresenta no momento. Vale ressaltar que levamos em consideração o estado emocional e que por tratarmos de pessoas e não de doenças, os fatores físico, mental e social estarão sendo vistos e respeitados como uma só unidade. Estão sendo utilizadas técnicas específicas através dos conceitos terapêuticos da Fisioterapia e também recursos e equipamentos presentes aqui no Centro Internacional de Reabilitação Nilton Petrone - R9

F&T - O Herbert Vianna respondeu bem ao tratamento ou teve algum diferencial?

Fernanda - O Herbert vem respondendo satisfatoriamente ao tratamento proposto. Mesmo com a agenda de Shows, viagens e ensaios, ele se mantém assíduo.

F&T - Em que fase do tratamento ele se encontra agora?

Fernanda - Através das sucessivas reavaliações e das reuniões semanais chefiadas pelo Dr. Nilton Petrone, é possível observar a evolução do Herbert na realização dos exercícios prescritos, que por isso, vem sendo modificados e adaptados. O tratamento ainda preconiza interferir nas deficiências, principalmente na força muscular, amplitude de movimento e estabilidade e também nas incapacidades como as transferências com a cadeira de rodas.

F&T - Qual o prognóstico? (que se espera do futuro dele)

Fernanda - É difícil falarmos de prognóstico fisioterapêutico quando estamos diante de fatores como tempo e severidade da doença, e principalmente da individualidade biológica. Porém, com as respostas apresentadas pelo Herbert nas consultas fisioterapêuticas, podemos pensar em um prognóstico favorável.

F&T - Qual recado você tem para os colegas que estejam tratando de pacientes com sintomas parecidos, algum toque especial ao algo assim?

Fernanda - Pacientes com esse envolvimento neurológico apresentam deficiências importantes que afetam diretamente a capacidade do movimento, deslocamento e independência. Estejamos, com isso, sempre atentos à dignidade e às necessidades do paciente visando sempre a sua reintegração social. E que continuemos estudando e nos aprofundando no conhecimento da Fisioterapia como Ciência da Área da Saúde para uma ideal indução terapêutica.

F&T - O que a recuperação de Herbert significa para a fisioterapia brasileira?

Fernanda - Acredito que a recuperação do Herbert seja edificante para a Fisioterapia Brasileira como todas as recuperações que ela, pôde, pode e poderá proporcionar. É possível que através da notoriedade a sua recuperação sirva de estímulo para as pessoas que estão passando pela mesma situação e também de exemplo do que ocorre nas clínicas, hospitais e domicílios espalhados pelo Brasil.

 
 
Revista Fisio&terapia 2006