SAIR DE CASA PARA ESTUDAR
Liberdade não faz mal a ninguém, mas veja
lá o que você vai arrumar!
“Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga
pra gente ficar assim”, disse o poeta Cazuza.
O Brasil é um País com esse tamanhão
todo; uma imensidão de gente, de terra, de
floresta, de alimento, de beleza, mas também
de injustiças, de desmandos, de má distribuição
de tudo o que se possa imaginar. Tudo acontece em
nosso País, mas como na vida nada é
só desvantagem e prejuízo, vimos observando,
especialmente no eixo Rio/São Paulo a presença
de alunos de outros Estados, que buscam em nossas
cidades o sonhado desenvolvimento intelectual, similarmente
ao que se dá com o trabalhador. Sejam todos
bem-vindos, falo pelo Rio de Janeiro, mas na certeza
de que em São Paulo existe o mesmo sentimento.
Procuramos abraçar esses “irmãos”
de outros lados com todo carinho e respeito, buscando
facilitar-lhes a vida nessa selva de pedra, que é
a cidade grande. Contudo, é muito complicado
pra quem vai estudar distante de seus parentes, amigos,
namorada (o) e tudo o mais e, como bons cariocas,
gozadores na essência, a gente dá uma
brincada, faz umas molecagens, mas nada que venha
a ferir ou magoar ninguém, servindo para criar
amizade mais rapidamente. É mais ou menos o
que eu fazia nos tempos de Faculdade, na FRASCE, onde
me fazia passar pelo meu querido professor de Fisiologia,
Dr. Cláudio Rodrigues, hoje um dos grandes
amigos e colegas de profissão, e aplicava aqueles
trotes maravilhosos, com roteiro, ensaios, atores
e atrizes principais e coadjuvantes e algumas cervejas
no bar da Geni ao final. Encontro, hoje ainda, muita
gente boa, colegas de profissão, professores
também, que copiaram as “axonites”,
“puberiontites”, “vaginitis arrogantis”,
tudo inventado para fazer a galera copiar feito louco
e sem tempo para pensar. Era muito divertido e aproximava
todo muito, mas, quem sabe, um dia consigamos contar
esse “causo” com detalhes.
Como vocês devem imaginar, a definição
de professor não é: “um carrasco
onde o capuz fora substituído por um jaleco,
o chicote pela barra de giz e o machado pela caneta”,
que certamente vai fazer de tudo para te prejudicar.
Ao contrário o professor, muitas das vezes,
salva o aluno em várias circunstâncias
e de diversas maneiras. Temos vivido experiências
interessantes, pois são mineiros, capixabas,
catarinenses, potiguares, soteropolitanos, etc, os
alunos com os quais temos tido a oportunidade de conviver
ao longo desses anos de magistério superior.
É gente de tudo que é jeito, pobre,
muito pobre, rica, muito rica, farrista, brincalhona,
organizada, bagunçada; gente que morre de saudades
de casa, ou que nem lembra que tem mãe ou pai,
que aproveita para trocar de namorada(o), gente que
quer colo, que merece castigo, enfim aparece de tudo
nas nossas Universidades e o gostoso está exatamente
nessa diversidade de sotaques, de culturas, de manias,
de preferências - tão marcantes na cultura
nacional - de objetivos e, principalmente, nas estratégias
de sobrevivência.
Viver no Rio de Janeiro pode ser complicado, uma
verdadeira aventura, sozinho nessa selva de pedra,
uma loucura. Tudo começa na escolha do apartamento,
pois todo mundo quer ficar perto da Universidade e
num lugar que seja barato, ou tenha um custo acessível,
ao menos. Pronto, começou a bagunça!
No dia da matrícula a galera se conhece na
fila e monta as “repúblicas”, ou
seja, um lugar onde viverá um monte de gente
que estuda na mesma Universidade, mesmo que em cursos
diferentes. Quando o pessoal é da mesma cidade
de origem fica mais fácil, mas nem sempre é
possível isso. Geralmente cada um tem um quarto,
mas é comum o uso de um quarto para cada duas
pessoas. Tudo pode acontecer, todas as possibilidades
podem ser viáveis, quaisquer especulações
serão perfeitos exercícios de criatividade,
pois a galera não se aperta, no bom sentido!
É uma verdadeira brincadeira na primeira semana.
Todo mundo está preocupado com o trote, que,
apesar de proibido, pode ser usado de modo inteligente
como o trote ecológico (catar latas e objetos
plásticos encontrados no chão e jogá-los
no lixo), o trote da caridade (doar um quilo de alimentos
não perecíveis e entregá-los
a uma casa de caridade), aquele trote do nosso tempo
de FRASCE, entre outros, sem violência ou abusos
de nenhuma espécie. Entretanto, muitas Universidades
proíbem, inclusive, esses tipos de trote, o
que não será objeto de discussão
aqui. Passada primeira semana vem saudade, de mãe,
de pai, de “maínha” e de “paínho”,
de minha rainha e de meu rei, de mano, de titia, de
tio, de primo, de padre Antônio, de travesseiro,
de ursinho, de minha goiabeira no fundo do quintal,
de minha praça – “professor, será
que a festa da padroeira ta animada!?”. E nessas
horas o(s) professor(es) transformam-se em consolador(as),
pois que ficar contando isso para a rapaziada pode
ser “pagação de mico”. Tem
aquela turma que vai ao primeiro churrasco, também
chamado de “Churrasco do Calouro Magro”
e “enche a cara” de pinga, até
porque acha que a pinga do Rio é mais fraca
que a da sua terrinha, e chora todas as mágoas
que pode. Este encontro é importante, pois
daí surgem os primeiros apelidos, rolam os
primeiros “climas”, os primeiros ciúmes
e tudo o mais. Eu tive uma aluna que chorava todos
os dias e ligava para casa dos pais todos os dias
que chorava, conclusão: o pai chorava de saudades,
por um olho e de ver o tamanho da conta, pelo outro,
até porque quem está com saudade não
fala “oi” e desliga, quer ficar conversando
sem cansar.
Mas voltando à questão das estratégias
de sobrevivência, lembro das técnicas
de lavagem das roupas, pois muitos levavam para casa
trouxas de roupa suja para a mãe lavar; outros
namoravam a vizinha ou mesmo usavam o branco até
ele adquirir aquele grená misturado com cobre.
Outros, por sua vez, não se faziam de rogados
e “metiam as mãos na massa” e já
dá para imaginar o que acontecia. Lembro-me
de um aluno, um baiano (sem preconceitos contra a
Bahia, ao contrário estou é triste porque
os amigos Prof. Paulino e Profª Mirca não
me levaram para o ENAF-Bahia, em Janeiro próximo),
mas é que o cara tinha acordado em cima da
hora da prova, a roupa estava molhada e por passar
e ele vestiu-a assim mesmo e foi para a prova. Quando
aquela figura “massa”, ou “porreta”
adentrou o recinto, inclusive a prova já havia
começado, quase houve uma epidemia focal de
parada respiratória por fadiga do diafragma,
de tanto que o pessoal ria e não conseguia
parar. Pelo menos quebrou a tensão da prova.
E por aí vai, a rapaziada sempre arrumando
confusão, sempre se metendo em encrencas e,
na maior parte das vezes, nós os professores
é que ajudávamos nas soluções.
E por falar em aluno, recebi um feedback interessante
de um aluno da UNIG, o Giovani, sobre aquela questão
da comunicação entre paciente e fisioterapeuta.
Nosso aluno relata algumas “pérolas”,
encontradas no dia-a-dia da profissão, do tipo:
“- doutor estou com captura do ministro”;
“- o Sr. Sabe que eu fui atropelado e sofri
um reumatismo craniano” ; “- o que me
mata é essa escabiose na coluna”; “-
puxa doutor, eu acho que esse tênis colocaram
em minhas costas não adiantou nada” e
pra terminar: “- doutor, operei o perini e não
consigo encontrar um remédio genético,
tá tudo muito caro”. Mas é aquilo,
essa gente simples, que Papai do Céu nos permite
orientar e assistir merece todo nosso respeito e carinho,
pois somos nós o esteio na hora da dor e o
exemplo para seus filhos seguirem, na tentativa de
um mundo melhor e mais justo para todos.
Mas não é que acabou, sô! Tem
horas que fico imaginando as expressões faciais,
as caretas do pessoal lendo essa coluna e penso que
se visse algumas delas, provavelmente me divertiria
quase tanto quanto escrevendo.
Continuem mandando seus recados, críticas,
comentários. Falem conosco, dêem sugestões,
mas lembrem-se: mantenham o bom humor!
“A
criatividade consiste em ver o que todo mundo vê
e pensar o que ninguém pensou”.
Szent Gyorgi, Nobel de química.
LUÍS GUILHERME BARBOSA
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