Coluna do Prof. Luis Guilherme
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FESTA PARA FISIOTERAPEUTA NÃO É SÓ CERVEJA, REFRIGERANTE, SALGADINHOS E DOCINHOS.

Pois é, acabo de chegar de uma festa e mais uma vez passei por uma situação cada dia mais freqüente na vida dos fisioterapeutas. O pessoal acha que fisioterapeuta em festa é para dar atendimento gratuito. É sempre a mesma coisa, todos têm uma “dorzinha nas costas”, ou um “barulho no joelho”, ou ainda o famigerado “pulso aberto”. Os colegas sabem exatamente a que me refiro, os acadêmicos já devem estar vivenciando tal fato, mas a verdade é que toda festa termina em trabalho. Um amigo meu convidou-me para o aniversário do seu filho mais novo, um flamenguista, e como eu gosto muito da família fomos, eu e minha família, prestigiá-los. O meu amigo, naquela tentativa solene de me enturmar saiu me apresentando para todo mundo: - Esse aqui é um amigo meu, o Dr. Guilherme, fisioterapeuta, um prevencionista de carteirinha, um homem da ergonomia! Começou o calvário. Aproximou-se um gordinho, com cara de “muitos amigos”, e perguntou tantas coisas, e ao mesmo tempo, que eu não conseguiria responder nem que estivesse na Ferrari do Barrichelo. O caro perguntou sobre pés, joelhos, quadris e quando chegou na coluna eu pensei que teria de sair daquela festa, parar numa pizzaria, pois não dava tempo nem para fazer uma boquinha. Entendi que aquele gordinho era gordinho devido à ansiedade. Minha mulher estava versando sobre mesa de bolo com nossa anfitriã e nada podia fazer para me salvar. Foi quando minha filha pequena passou correndo, aliás festa de criança que não tem criança correndo parece não ser festa, não raro eu tenho que por em prática minha prática de socorrista da Cruz Vermelha, então peguei minha pequena pelo e braço e pedi que me conseguisse um refrigerante, pois minha garganta já estava dando sinais de cansaço. Foi aí que eu percebi que o dito gordinho havia me isolado da festa e tomei a decisão de retornar a festa e, com a clássica desculpa da ida ao banheiro, livrei-me da situação. No banheiro, entre outras coisas, dei uma relaxada, fiz um gargarejo com água pura para aliviar as pregas vocais, pois parecia que eu estava num desses Congressos em que você tem que apresentar um trabalho feito em seis meses, registrado em dez laudas, num espaço de tempo de dez minutos e sem microfone para um público de 250 pessoas. Saí do banheiro com a sensação do dever cumprido, pois meu cliente havia sido atendido em suas necessidades e ouvi aquela frase: - Caro doutor, bem que eu estava procurando-o! Ora, ora se não me chamou de Guilherme é porque lá vem consulta, pensei. Mas não, não era nada disso, o cara queria saber o que eu pensava sobre o tratamento do Filé no joelho do Ronaldinho. Pronto, lá se foi mais meia hora de festa pelo ralo, porque você discutir um assunto técnico com quem entende é uma coisa, porém com os “achologistas” é outra bem diferente. O pior é que a máxima “de médico, técnico de futebol e louco todo brasileiro tem um pouco” pode agora ser modificada, ou seja: “de fisioterapeuta, médico, técnico de futebol e louco todo brasileiro tem um pouco”. E tome-lhe a ouvir besteiras, mas a ética manda que mantenhamos postura cordata, principalmente tratando-se de um leigo e que está tentando ser agradável. Lembrei-me do Dr. João Branjão, pois se eu que não trabalho com desporto fiquei de ouvido edemaciado, imagino que o amigo teria uma síncope. Voltei ao banheiro para nova escapadela e, mais uma vez, deu certo.
Tudo ia muito bem, eu já havia conseguido chegar à mesa, que nos fora reservada e estava mantendo uma relação amigável com os garçons (havia prometido um pôster autografado do Romário e um do Athirson) eis que se aproxima uma mulher, no auge de seus trinta anos, bem vestida em um tubinho preto e com os espaços da vestimenta completamente preenchidos, acompanhada da sogra do meu amigo. Eu pensei cá com meus botões: se vem de sogra , boa coisa não pode ser! No jogo da vida adivinhar é proibido, mas não deu outra, pois a senhora em questão pediu uma orientação para uma determinada dor que sentia na região lombar, mostrando com a mão. Fiz alguns questionamentos básicos, mais por educação que por técnica de avaliação e chegamos ao momento em que, normalmente, conseguimos sair pela tangente quando usamos a seguinte expressão: - Bem fica difícil dar uma opinião sem ver a região, sem fazer um exame mais completo. Foi nesse ponto que a massa desandou, o céu veio abaixo, o tiro saiu pela culatra, ou seja lá como vocês queiram chamar, pois a moça, que não se fez de rogada, abaixou o zíper do tubinho e virou-se de costas, posicionou-se melhor para eu realizar o referido exame mais completo. Diante daquela cena, exatamente no momento em que o pessoal cantava “segura o tchan” no videoquê, minha reação foi a de buscar os olhos da minha mulher. Encontrei-os fuzilantes, acompanhados daquela postura corporal tradicional, qual seja: contração bilateral do músculo corrugador do supercílio, mãos apoiadas na asa dos ilíacos, anteropulsão de ombros e região do antepé em contato intermitente com o solo. A única expressão possível neste momento é aquela nossa conhecida: “Xiiiii!!!”. Mas, como dizem que Deus é brasileiro e torce pelo América-RJ, como eu, o fato de ser casado com uma colega de profissão salvou-me a pele apesar de não ter salvo a festa. Terminei meu Sábado em completa hipertonia paravertebral, que me obrigou a dormir sobre uma almofada térmica na posição de Williams, jurando que festa nunca mais. Mas isso passa.
Brincadeiras a parte, apesar de que sem elas a vida fica complicada, isso tudo se dá em função da evolução de nossa profissão. Antigamente, éramos confundidos com massagistas ou enfermeiros. Atualmente, já conhecem bem o que fazemos e localizam, inclusive, algumas intervenções que fazemos. È difícil encontrar uma pessoa, que nunca tenha feito um tratamento fisioterápico. Já temos crianças querendo ser fisioterapeutas quando crescerem. Isso tudo é muito bom, muito bonito, mas esconde um aspecto que tenho visto ser esquecido. A RESPONSABILIDADE. Encontramos alunos que colam, profissionais que não se aprimoram, estabelecimentos de ensino que não investem na produção e difusão do saber, etc. É preciso pensar que se somos a profissão do futuro devemos prepará-lo desde já, pois se pensarmos que o futuro deverá ser preparado depois estaremos a cuidar do presente, que poderá se transformar em “um presente de grego”. A solução é aprender, ensinar, criar, compartilhar e produzir, tudo no eterno ciclo do viver. E, depois de ler este artigo, não deixe de ir a festas.

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“Valorize seus limites e por certo não se livrará mais deles”
Richard Bach

LUÍS GUILHERME BARBOSA
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Revista Fisio&terapia 2006