FESTA PARA FISIOTERAPEUTA NÃO
É SÓ CERVEJA, REFRIGERANTE, SALGADINHOS
E DOCINHOS.
Pois é, acabo de chegar de
uma festa e mais uma vez passei por uma situação
cada dia mais freqüente na vida dos fisioterapeutas.
O pessoal acha que fisioterapeuta em festa é
para dar atendimento gratuito. É sempre a mesma
coisa, todos têm uma “dorzinha nas costas”,
ou um “barulho no joelho”, ou ainda o
famigerado “pulso aberto”. Os colegas
sabem exatamente a que me refiro, os acadêmicos
já devem estar vivenciando tal fato, mas a
verdade é que toda festa termina em trabalho.
Um amigo meu convidou-me para o aniversário
do seu filho mais novo, um flamenguista, e como eu
gosto muito da família fomos, eu e minha família,
prestigiá-los. O meu amigo, naquela tentativa
solene de me enturmar saiu me apresentando para todo
mundo: - Esse aqui é um amigo meu, o Dr. Guilherme,
fisioterapeuta, um prevencionista de carteirinha,
um homem da ergonomia! Começou o calvário.
Aproximou-se um gordinho, com cara de “muitos
amigos”, e perguntou tantas coisas, e ao mesmo
tempo, que eu não conseguiria responder nem
que estivesse na Ferrari do Barrichelo. O caro perguntou
sobre pés, joelhos, quadris e quando chegou
na coluna eu pensei que teria de sair daquela festa,
parar numa pizzaria, pois não dava tempo nem
para fazer uma boquinha. Entendi que aquele gordinho
era gordinho devido à ansiedade. Minha mulher
estava versando sobre mesa de bolo com nossa anfitriã
e nada podia fazer para me salvar. Foi quando minha
filha pequena passou correndo, aliás festa
de criança que não tem criança
correndo parece não ser festa, não raro
eu tenho que por em prática minha prática
de socorrista da Cruz Vermelha, então peguei
minha pequena pelo e braço e pedi que me conseguisse
um refrigerante, pois minha garganta já estava
dando sinais de cansaço. Foi aí que
eu percebi que o dito gordinho havia me isolado da
festa e tomei a decisão de retornar a festa
e, com a clássica desculpa da ida ao banheiro,
livrei-me da situação. No banheiro,
entre outras coisas, dei uma relaxada, fiz um gargarejo
com água pura para aliviar as pregas vocais,
pois parecia que eu estava num desses Congressos em
que você tem que apresentar um trabalho feito
em seis meses, registrado em dez laudas, num espaço
de tempo de dez minutos e sem microfone para um público
de 250 pessoas. Saí do banheiro com a sensação
do dever cumprido, pois meu cliente havia sido atendido
em suas necessidades e ouvi aquela frase: - Caro doutor,
bem que eu estava procurando-o! Ora, ora se não
me chamou de Guilherme é porque lá vem
consulta, pensei. Mas não, não era nada
disso, o cara queria saber o que eu pensava sobre
o tratamento do Filé no joelho do Ronaldinho.
Pronto, lá se foi mais meia hora de festa pelo
ralo, porque você discutir um assunto técnico
com quem entende é uma coisa, porém
com os “achologistas” é outra bem
diferente. O pior é que a máxima “de
médico, técnico de futebol e louco todo
brasileiro tem um pouco” pode agora ser modificada,
ou seja: “de fisioterapeuta, médico,
técnico de futebol e louco todo brasileiro
tem um pouco”. E tome-lhe a ouvir besteiras,
mas a ética manda que mantenhamos postura cordata,
principalmente tratando-se de um leigo e que está
tentando ser agradável. Lembrei-me do Dr. João
Branjão, pois se eu que não trabalho
com desporto fiquei de ouvido edemaciado, imagino
que o amigo teria uma síncope. Voltei ao banheiro
para nova escapadela e, mais uma vez, deu certo.
Tudo ia muito bem, eu já havia conseguido chegar
à mesa, que nos fora reservada e estava mantendo
uma relação amigável com os garçons
(havia prometido um pôster autografado do Romário
e um do Athirson) eis que se aproxima uma mulher,
no auge de seus trinta anos, bem vestida em um tubinho
preto e com os espaços da vestimenta completamente
preenchidos, acompanhada da sogra do meu amigo. Eu
pensei cá com meus botões: se vem de
sogra , boa coisa não pode ser! No jogo da
vida adivinhar é proibido, mas não deu
outra, pois a senhora em questão pediu uma
orientação para uma determinada dor
que sentia na região lombar, mostrando com
a mão. Fiz alguns questionamentos básicos,
mais por educação que por técnica
de avaliação e chegamos ao momento em
que, normalmente, conseguimos sair pela tangente quando
usamos a seguinte expressão: - Bem fica difícil
dar uma opinião sem ver a região, sem
fazer um exame mais completo. Foi nesse ponto que
a massa desandou, o céu veio abaixo, o tiro
saiu pela culatra, ou seja lá como vocês
queiram chamar, pois a moça, que não
se fez de rogada, abaixou o zíper do tubinho
e virou-se de costas, posicionou-se melhor para eu
realizar o referido exame mais completo. Diante daquela
cena, exatamente no momento em que o pessoal cantava
“segura o tchan” no videoquê, minha
reação foi a de buscar os olhos da minha
mulher. Encontrei-os fuzilantes, acompanhados daquela
postura corporal tradicional, qual seja: contração
bilateral do músculo corrugador do supercílio,
mãos apoiadas na asa dos ilíacos, anteropulsão
de ombros e região do antepé em contato
intermitente com o solo. A única expressão
possível neste momento é aquela nossa
conhecida: “Xiiiii!!!”. Mas, como dizem
que Deus é brasileiro e torce pelo América-RJ,
como eu, o fato de ser casado com uma colega de profissão
salvou-me a pele apesar de não ter salvo a
festa. Terminei meu Sábado em completa hipertonia
paravertebral, que me obrigou a dormir sobre uma almofada
térmica na posição de Williams,
jurando que festa nunca mais. Mas isso passa.
Brincadeiras a parte, apesar de que sem elas a vida
fica complicada, isso tudo se dá em função
da evolução de nossa profissão.
Antigamente, éramos confundidos com massagistas
ou enfermeiros. Atualmente, já conhecem bem
o que fazemos e localizam, inclusive, algumas intervenções
que fazemos. È difícil encontrar uma
pessoa, que nunca tenha feito um tratamento fisioterápico.
Já temos crianças querendo ser fisioterapeutas
quando crescerem. Isso tudo é muito bom, muito
bonito, mas esconde um aspecto que tenho visto ser
esquecido. A RESPONSABILIDADE. Encontramos alunos
que colam, profissionais que não se aprimoram,
estabelecimentos de ensino que não investem
na produção e difusão do saber,
etc. É preciso pensar que se somos a profissão
do futuro devemos prepará-lo desde já,
pois se pensarmos que o futuro deverá ser preparado
depois estaremos a cuidar do presente, que poderá
se transformar em “um presente de grego”.
A solução é aprender, ensinar,
criar, compartilhar e produzir, tudo no eterno ciclo
do viver. E, depois de ler este artigo, não
deixe de ir a festas.
Continuem mandando seus recados,
críticas, comentários e sugestões.
Falem conosco, dêem sugestões, mas
lembrem-se: mantenham o bom humor !
“Valorize seus
limites e por certo não se livrará
mais deles”
Richard Bach
LUÍS GUILHERME BARBOSA
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