Coluna do Prof. Luis Guilherme
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DEU BRANCO

Nós, profissionais da área de saúde, regularmente usamos o branco, mas geralmente como um simples uniforme, sem, muita vezes, perceber seu significado mais profundo. O branco deve ser usado com muito respeito e responsabilidade, pois é assim que as pessoas encaram alguém vestido de branco. Estar de branco não significa ser da área de saúde, muito menos ser “doutor”, mas pode, em alguns, casos revelar um grande ator. Se fizermos um passeio por um shopping, preferencialmente próximo de uma Universidade com cursos da área de saúde, encontraremos algumas “figuras”. É comum encontrarmos estudantes, principalmente dos primeiros períodos, independentemente do sexo, “tirando onda de branco”. Em geral, os mesmos que carregam aqueles pesados livros debaixo do braço, e que podemos vulgarmente chamar de “cultura axilar”, apresentam os músculos elevadores das sobrancelhas em contração estática máxima, como se isso empinasse o nariz, mantêm aquele “sorriso de boca fechada” e cumprimentam a todos com a cabeça. Não o fazem por mal, na maioria das vezes, mas é importante diferençar a alegria e o prazer de estar de branco, com a soberba e o poder. Usar o branco é motivo de orgulho e contentamento, mas é preciso ter sempre em mente que o que vale não é estar de branco, mas estar devidamente capacitado para usar o branco. Entretanto, os(as) alunos(as) não precisam ser crucificados(as) por essa atitude, até porque esse hábito começa no seio da família. É comum identificarmos no orgulho dos pais o estímulo-motivação do estudante quanto ao uso do branco. É freqüente aquela imagem do(a) filho(a) indo, todo(a) de branco, para a Universidade, e a mãe, olhos rasos d’água, parada no portão, comenta com a vizinha, suspirando: “ - não é lindo(a), todo(a) de branquinho? Fico até arrepiada só de ver!” E a vovó - para quem não sabe a definição de vovó, aqui vai: vovó é o único ser na face da Terra capaz de ser melhor que mamãe - e é exatamente ela quem nos presenteia com aquele jogo de canetas de todas as cores: azul, lilás, amarela, preta, branca, verde, e tantas outras mais. Porém, não devemos ver essas atitudes com maus olhos, pois representam a alegria de ver seu herdeiro(a) no bom caminho. Trata-se de alguém que compartilha, a seu modo, nossa vitória. Mesmo porque, se considerarmos as grandes dificuldades em nosso pais, concordaremos que pertencemos a uma elite. Mas o branco pelo branco não diz nada, então existem acadêmicos e profissionais melhor posicionados financeiramente, que só se vestem de linho branco. Mas, se prestarmos bastante atenção, fica muito bonito aquela camisa de linho branco, calça de linho branco, meias de linho branco, roupas íntimas de linho branco, cinto e sapatos brancos de “couro de jacaré albino”, brincos brancos, batom branco, pager e celular brancos etc. Contudo, o que vale mesmo é o ser humano, que está sendo vestido por aquele branco. Cabe ressaltar que conhecemos diversos colegas que só se vestem assim, ficam lindos(as), mas possuem notório saber e merecem todo o respeito.E o branco ainda traz algumas vantagens, pois é comum numa “blitz” o policial vê-lo(a) de branco e liberá-lo(a), até num gesto de gentileza para com alguém que indica pertencer a uma das áreas profissionais mais bem conceituadas da sociedade - a área da saúde, não desfazendo das outras áreas. Ou mesmo quando se tem um parente internado num hospital, e vem aquela tia e pede para “dar uma olhadinha”, porque ninguém pode visitar e, então, você coloca seu uniforme branco, chega no hospital e, como se fosse da casa, vai lá dar a tal “olhadinha”, conversa com pessoal do plantão, tranqüiliza os familiares e transforma-se no(a) mais novo(a) herói(ína) da família ao atender seus anseios. Mas na vida nem tudo é só vantagem, nessa minha vida de Docente, devido a minha grande proximidade com os alunos, procuro conversar sempre com eles e com meus acadêmicos, e tenho ouvido alguns “causos” contados pelo pessoal. Um desses “causos”, me foi revelado por uma aluna: estava se dirigindo para a casa de seus pais, fora do Rio de Janeiro, viajando imediatamente após o término da aula, portanto ainda estava toda de branco. No meio da viagem, houve um acidente de trânsito e a estrada ficou interditada. Como demorava muito, todos saíram do ônibus e ficaram na estrada e, então, para surpresa dela, um guarda rodoviário aproximou-se e disse - “Doutora, precisamos da sua ajuda, pois temos muitas pessoas feridas, inclusive com suspeitas de hemorragia interna. Venha comigo.” E ela, que nem curso de primeiros socorros tinha, até explicar que “focinho de porco não é tomada”, muita água rolou e alguém deve ter ficado com a idéia de que houve má vontade ou até mesmo negligência. O outro “causo” foi de um aluno que passeava, todo feliz, por um shopping center, desses da vida,e, em determinado momento, viu uma pequena aglomeração. Curiosamente, aproximou-se para ver o ocorrido. As pessoas viram-no de branco e abriram caminho. Ele, inocente-mente, parou em frente a uma senhora que estava desmaiada, caída no chão, e ficou olhando o quadro, quando, então, ouviu uma voz muito grave vindo do fundo - “e aí doutorzinho, veio só para ficar olhando ou vai tomar uma providência ?”. Fez de conta que não era com ele, pois nada sabia de primeiros socorros, mas um senhor que estava ao seu lado, pegou seu braço e gritou: - “Isso é omissão de socorro!”. Foi quando, numa daquelas intuições salvadoras, também denominadas “insites”, ele disse, retirando o braço da mão do homem - “O que é isso, meu amigo? Eu trabalho numa ótica aqui perto!”.UFA! Todas essas coisa ocorreram porque o branco não é para “tirar onda”, pois nele esta embutida uma grande respon-sabilidade. Não somos opositores ao uso do branco, muito menos à sua exigência no cursos universitários, porque essas exigências buscam, justamente, dar ao aluno um senso maior de responsabilidade. Deve, portanto, ficar bem claro que o branco é muito bonito, é motivo de orgulho para todos, pode significar um “status” maior, mas deve ser usado com consciência e capacitação, deixando de lado a vaidade. Por falar nisso, você já fez um Curso de primeiros socorros?

CABE DIZER QUE: SE VOCÊ GOSTOU, NOSSO MUITO OBRIGADO PELA FORÇA E PELO CARINHO, É BOM TER E RECEBER ESSE INCENTIVO; SE VOCÊ NÃO GOSTOU, NOSSO MUITO OBRIGADO TAMBÉM, POIS É DEVER DE TODOS MANTER VIVO O DIREITO
DE PODERDISCORDAR;

SE VOCÊ SENTIU-SE HUMILHADO (A) E/OU DESRESPEITADO(A) EM ALGUM MOMENTO, NOSSO PEDI-DO FORMAL DE DESCULPAS, VISTO QUE NENHUMA LETRA DE NOSSAS PALAVRAS TEVE, NEM TERÁ, ESSA
INTENÇÃO.

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"UMA PALAVRA PODE SER EFETIVA, MAS NÃO HÁ PALAVRA TÃO EFETIVA QUANTO UMA PAUSA BEM COLOCADA"
Mark Twain, escritor americano

LUÍS GUILHERME BARBOSA
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Revista Fisio&terapia 2006