Coluna do Prof. Luis Guilherme
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A CULPA SEMPRE É DA CADEIRA !!!
CULPAR OS EQUIPAMENTOS NÃO É A SOLUÇÃO PARA OS PROBLEMAS ERGONÔMICOS.

RESUMO
A Ergonomia está baseada em quatro elementos: máquina, ambiente, processo de trabalho e homem. Este último tem recebido pouca atenção, relativamente, porque o mobiliário e os equipamentos têm recebido mais ênfase. Contudo, influências negativas no relacionamento homem-máquina são facilmente visualizadas. A educação em atividades preventivas evita que o trabalhador adote posturas viciosas enquanto utiliza seu equipamento. É fácil definir um mobiliário como ergonômico ou não ergonômico, apesar da pouca atenção destinada ao comportamento anti-ergonômico. Este fato dificulta qualquer intervenção ergonômica, significando que, apenas, a mudança da mobília, a aquisição de máquinas e a reorganização do processo de trabalho não serão suficientes para prevenir a instalação de lesões.

Palavras-chave: Ergonomia, Prevenção e Ecologia Humana.

THE CHAIR IS ALWAYS BAD !!!
THE FURNITURE ARE NOT TOTAL SOLUTION TO ERGONOMICAL PROBLEMS


ABSTRACT
Ergonomics is based on four elements: machine, environment ,work process and man. This last one has relatively received few attention because furniture and equipments have been more enphasized. Nevertheless, negative influences in the man-machine relationship are very clear. When challenging about preventive tasks, increasing efforts on education avoids people from adopting usual postures when using their equipments. It is easy to consider a furniture ergonomic or non- ergonomic, nevertheless few attention has been given to non-ergonomic behavior. This fact cause interference in any ergonomic intervention. It means that changing all the furniture, adopting all machines and remodeling all work process won’t be enough to prevent injuries.


Key-words: Ergonomy, Prevention and Human Ecology


1 – INTRODUÇÃO
É grande o sofrimento que os trabalhadores de escritório que usam microcomputadores (6), em diversas empresas, vêm relatando. As lesões causadas pelo esforço repetitivo no trabalho podem estar se tornando um problema epidêmico nas empresas de um modo geral (1). A informática com suas vantagens e desvantagens invadiu as mesas do homem moderno. Do microprocessador 8080 ao pentium não passou muito tempo, mas a distância de resultados é quase imensurável. São diversos os interesses que prendem o homem ao micro, seja no lazer ou no trabalho, são horas e horas de postura estática diante da telinha. Essa invasão não foi planejada, até por que seria muito difícil prever tudo o que este bólido traria.


2 - PROCESSOS ENCADEADOS, CRESCIMENTO RÁPIDO.
No início era tudo muito complicado. Primeiro vieram aos terminais e apenas os digitadores ficavam muito tempo diante da telinha, enquanto o restante do pessoal estava engatinhando, um ou outro que havia cursado uma disciplina de introdução à informática, no último semestre do Curso de Engenharia, ou mesmo teria feito um cursinho de programação de computadores. Era fácil ter acesso aos terminais, não havia muita procura, havia muito medo. Porém, como dizia a letra de uma música de um antigo festival da canção popular: "o tempo não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém, veio o desenvolvimento tecnológico, o custo baixou, a necessidade se fez presente, o desejo foi envolvido e, atualmente, quem não possui um micro potente sobre a mesa pode ser considerado um "informata - um primata na informática". Assim sendo, se circularmos pelas salas encontraremos algo perto da totalidade de trabalhadores vidrados nos "milagres" mostrados na telinha. São cores, movimentos e resultados cada vez mais complexos e obtidos com velocidades cada vez maiores, que nos prendem, nos abraçam e nos envolvem em um balé gostoso e sempre muito intrigante. Pena que os movimentos mais significativos são realizados pelos olhos.


3 - PENA QUE "O CORPO FICA SÓ OLHANDO" !
São várias horas seguidas diante da telinha, pensando, entendendo, executando comandos, clicando ícones e caixas de respostas, abrindo e fechando janelas, testando impressões, modificando cores e margens, fontes e alinhamentos, criando figuras, recortando e colando, enfim, criando, a mente à mil por hora. No entanto, o corpo fica ali só olhando tudo, quase inerte, preocupado em manter-se diante da telinha, a dona das atenções, sem liberar nem uma gota de suor, que não seja por ordem da dificuldade de resolução de algum problema surgido na última hora. Contudo, supõe-se que nem tudo está perdido, pois existem vários movimentos sendo executados durante o uso do micro, tais como flexão e extensão de dedos - as vezes bem rápida - e da cabeça durante a digitação, mais freqüente e acentuados naqueles que não sabem datilografar corretamente. E o que parecia solução transforma-se em problema, porque são esses movimentos, esforços constantes que produzem as chamadas lesões de esforço repetitivo (2), que crescem a cada ano (5) e já podem ser consideradas um verdadeiro problema social (6).


4 - O QUE TEM SIDO FEITO PARA RESOLVER A PROBLEMÁTICA ?
Alguns passos foram dados no sentido de solucionar estes problemas com a criação da NR-17, da Consolidação das Leis Trabalhistas, gerando diretrizes claras, apesar de sem o aprofundamento de especificações, abrindo um mercado novo. Do mesmo modo, o INSS divulga material informativo, buscando tornar homogêneos os conhecimentos sobre as patologias do sistema músculo-esquelético de origem laboral (7). Surgiram, então, as mesas, cadeiras, teclados, monitores e vários outros equipamentos ergonômicos, as pausas durante o trabalho foram inseridas, os ritmos de trabalho foram revistos, os processos foram reestudados, investiu-se mais em treinamento, nas empresas que se preocuparam com esses aspectos. Foram solucionados os problemas, então? Acabaram as lesões de esforço repetitivo? De certo que não. Um mobiliário, um ambiente, um processo de trabalho ergonomicamente adaptados são suficientes para conter a instalação das lesões? E o homem, como foi inserido nesse contexto? Seria suficiente entregar a alguém, que não sabe dirigir, um carro?


5 - O HOMEM É A CHAVE MESTRA PARA A SOLUÇÃO !
Primeiro temos que possuir um mobiliário que permita ajustes. Em seguida basta ajustá-lo e usá-lo corretamente (3). O empregado sabe como fazer esses ajustes? As pessoas sabem como sentar corretamente em uma cadeira ergonômica? A pessoa possui músculos fortes ou flácidos? E a postura, é boa ou existem muitos encurtamentos musculares? A técnica de datilografia é adequada? Começa a se desenhar, então, a ergonomia pessoal. As máquinas, os sistemas e os processos são desenvolvidos para otimizar o trabalho humano, entretanto devemos considerar que a "máquina humana" possui graus de flexibilidade muito maiores, pois a riqueza de movimentos é enorme. Sobre essa "máquina humana" incidem fatores diversos que interferem diretamente nos resultados da sua associação com outras máquinas.

5.1 - Fatores que interferem na associação da "máquina humana" à outras máquinas. São fatores diversos que podem estar ligados à cultura do indivíduo, à regionalidade, à posição social e a uma infinidade de aspectos. Esses fatores são:
a) a cultura - durante a movimentação de cargas alguns homens querem demonstrar força maior do que realmente possuem;
b) a vaidade - as mulheres gostam de roupas que modelem o corpo e quando os tecidos não são finos limitam os movimentos;
c) o profissionalismo - algumas profissões exigem vestimentas próprias, como sapatos altos e uniformes incômodos;
d) o lazer - os finais de semana podem ser mais cansativos que a semana de trabalho se procurarmos atividades de real descanso;
e) os hábitos - dormir e assistir televisão podem gerar dores fortes na coluna, promovendo alterações diversas;
f) as características - o modo de dirigir, seja nas posturas, seja nas atitudes adotadas no trânsito;
g) a atividade física - o atleta de final de semana coloca em riscos seu sistema cardiovascular, além de ser um freqüentador assíduo do Setor Médico nas segundas-feiras;
h) o trabalho doméstico - o modo de varrer, as posturas adotadas na lavagem das roupas e no cozinhar podem ser complicadores sérios;
i) as dificuldades - há momentos na vida em que o estresse é inevitável, em virtude da "guinadas" inesperadas ou mesmo antes da tomada de decisões importantes.


6 - CONCLUSÕES
A adequação do mobiliário, o reestudo dos processos e a reorganização do trabalho são por demais importantes na obtenção de um trabalho menos sofrido, entretanto vale ressaltar que os problemas provenientes das atitudes dos trabalhadores são mais complicados quando tentamos compreender o todo. As questões atitudinais são extremamente fortes e, de modo geral, capazes de anular qualquer ajuste ou adaptação realizada no mobiliário, pois de que adiantaria uma cadeira ergonômica se o usuário não senta adequadamente, ou ainda, por quê estabelecer pausas de dez minutos a cada cinqüenta minutos de trabalho se o trabalhador não está preparado, física e/ou psicologicamente, para resistir aos cinqüenta minutos de atividade? Não podemos esquecer que a postura é resultado da consciência corporal e que o mobiliário deve ser visto como um agente facilitador do processo postural. Bem sabemos que um mobiliário inadequado atrapalha pode se transformar numa barreira intransponível para o indivíduo, entretanto temos que estar atentos ao modo de aplicação desse mobiliário. Poderíamos traçar um paralelo com a relação automóvel x homem, ou seja: se colocarmos em um carro de fórmula 1 alguém que não saiba dirigir de nada adiantará, por outro lado um carro antiquado atenderia (com as devidas limitações) um bom motorista. É preciso estabelecer processos mais estruturados de educação, capacitando o trabalhador na aplicação dos conceitos de ergonomia na sua rotina de trabalho e lazer, pois de nada adianta possuirmos os conhecimentos se os indivíduos que sofrem os problemas têm pouco acesso a estes conhecimentos de tanta utilidade.

LUÍS GUILHERME BARBOSA
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Revista Fisio&terapia 2006