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A CULPA SEMPRE É DA CADEIRA !!!
CULPAR OS EQUIPAMENTOS NÃO É A SOLUÇÃO
PARA OS PROBLEMAS ERGONÔMICOS.
RESUMO
A Ergonomia está baseada em quatro elementos:
máquina, ambiente, processo de trabalho e homem.
Este último tem recebido pouca atenção,
relativamente, porque o mobiliário e os equipamentos
têm recebido mais ênfase. Contudo, influências
negativas no relacionamento homem-máquina são
facilmente visualizadas. A educação em
atividades preventivas evita que o trabalhador adote
posturas viciosas enquanto utiliza seu equipamento.
É fácil definir um mobiliário como
ergonômico ou não ergonômico, apesar
da pouca atenção destinada ao comportamento
anti-ergonômico. Este fato dificulta qualquer
intervenção ergonômica, significando
que, apenas, a mudança da mobília, a aquisição
de máquinas e a reorganização do
processo de trabalho não serão suficientes
para prevenir a instalação de lesões.
Palavras-chave: Ergonomia, Prevenção
e Ecologia Humana.
THE CHAIR IS ALWAYS BAD !!!
THE FURNITURE ARE NOT TOTAL SOLUTION TO ERGONOMICAL
PROBLEMS
ABSTRACT
Ergonomics is based on four elements: machine, environment
,work process and man. This last one has relatively
received few attention because furniture and equipments
have been more enphasized. Nevertheless, negative influences
in the man-machine relationship are very clear. When
challenging about preventive tasks, increasing efforts
on education avoids people from adopting usual postures
when using their equipments. It is easy to consider
a furniture ergonomic or non- ergonomic, nevertheless
few attention has been given to non-ergonomic behavior.
This fact cause interference in any ergonomic intervention.
It means that changing all the furniture, adopting all
machines and remodeling all work process won’t
be enough to prevent injuries.
Key-words: Ergonomy, Prevention and Human Ecology
1 – INTRODUÇÃO
É grande o sofrimento que os trabalhadores de
escritório que usam microcomputadores (6), em
diversas empresas, vêm relatando. As lesões
causadas pelo esforço repetitivo no trabalho
podem estar se tornando um problema epidêmico
nas empresas de um modo geral (1). A informática
com suas vantagens e desvantagens invadiu as mesas do
homem moderno. Do microprocessador 8080 ao pentium não
passou muito tempo, mas a distância de resultados
é quase imensurável. São diversos
os interesses que prendem o homem ao micro, seja no
lazer ou no trabalho, são horas e horas de postura
estática diante da telinha. Essa invasão
não foi planejada, até por que seria muito
difícil prever tudo o que este bólido
traria.
2 - PROCESSOS ENCADEADOS, CRESCIMENTO RÁPIDO.
No início era tudo muito complicado. Primeiro
vieram aos terminais e apenas os digitadores ficavam
muito tempo diante da telinha, enquanto o restante do
pessoal estava engatinhando, um ou outro que havia cursado
uma disciplina de introdução à
informática, no último semestre do Curso
de Engenharia, ou mesmo teria feito um cursinho de programação
de computadores. Era fácil ter acesso aos terminais,
não havia muita procura, havia muito medo. Porém,
como dizia a letra de uma música de um antigo
festival da canção popular: "o tempo
não para no porto, não apita na curva,
não espera ninguém, veio o desenvolvimento
tecnológico, o custo baixou, a necessidade se
fez presente, o desejo foi envolvido e, atualmente,
quem não possui um micro potente sobre a mesa
pode ser considerado um "informata - um primata
na informática". Assim sendo, se circularmos
pelas salas encontraremos algo perto da totalidade de
trabalhadores vidrados nos "milagres" mostrados
na telinha. São cores, movimentos e resultados
cada vez mais complexos e obtidos com velocidades cada
vez maiores, que nos prendem, nos abraçam e nos
envolvem em um balé gostoso e sempre muito intrigante.
Pena que os movimentos mais significativos são
realizados pelos olhos.
3 - PENA QUE "O CORPO FICA SÓ OLHANDO"
!
São várias horas seguidas diante da telinha,
pensando, entendendo, executando comandos, clicando
ícones e caixas de respostas, abrindo e fechando
janelas, testando impressões, modificando cores
e margens, fontes e alinhamentos, criando figuras, recortando
e colando, enfim, criando, a mente à mil por
hora. No entanto, o corpo fica ali só olhando
tudo, quase inerte, preocupado em manter-se diante da
telinha, a dona das atenções, sem liberar
nem uma gota de suor, que não seja por ordem
da dificuldade de resolução de algum problema
surgido na última hora. Contudo, supõe-se
que nem tudo está perdido, pois existem vários
movimentos sendo executados durante o uso do micro,
tais como flexão e extensão de dedos -
as vezes bem rápida - e da cabeça durante
a digitação, mais freqüente e acentuados
naqueles que não sabem datilografar corretamente.
E o que parecia solução transforma-se
em problema, porque são esses movimentos, esforços
constantes que produzem as chamadas lesões de
esforço repetitivo (2), que crescem a cada ano
(5) e já podem ser consideradas um verdadeiro
problema social (6).
4 - O QUE TEM SIDO FEITO PARA RESOLVER A PROBLEMÁTICA
?
Alguns passos foram dados no sentido de solucionar estes
problemas com a criação da NR-17, da Consolidação
das Leis Trabalhistas, gerando diretrizes claras, apesar
de sem o aprofundamento de especificações,
abrindo um mercado novo. Do mesmo modo, o INSS divulga
material informativo, buscando tornar homogêneos
os conhecimentos sobre as patologias do sistema músculo-esquelético
de origem laboral (7). Surgiram, então, as mesas,
cadeiras, teclados, monitores e vários outros
equipamentos ergonômicos, as pausas durante o
trabalho foram inseridas, os ritmos de trabalho foram
revistos, os processos foram reestudados, investiu-se
mais em treinamento, nas empresas que se preocuparam
com esses aspectos. Foram solucionados os problemas,
então? Acabaram as lesões de esforço
repetitivo? De certo que não. Um mobiliário,
um ambiente, um processo de trabalho ergonomicamente
adaptados são suficientes para conter a instalação
das lesões? E o homem, como foi inserido nesse
contexto? Seria suficiente entregar a alguém,
que não sabe dirigir, um carro?
5 - O HOMEM É A CHAVE MESTRA PARA A SOLUÇÃO
!
Primeiro temos que possuir um mobiliário que
permita ajustes. Em seguida basta ajustá-lo e
usá-lo corretamente (3). O empregado sabe como
fazer esses ajustes? As pessoas sabem como sentar corretamente
em uma cadeira ergonômica? A pessoa possui músculos
fortes ou flácidos? E a postura, é boa
ou existem muitos encurtamentos musculares? A técnica
de datilografia é adequada? Começa a se
desenhar, então, a ergonomia pessoal. As máquinas,
os sistemas e os processos são desenvolvidos
para otimizar o trabalho humano, entretanto devemos
considerar que a "máquina humana" possui
graus de flexibilidade muito maiores, pois a riqueza
de movimentos é enorme. Sobre essa "máquina
humana" incidem fatores diversos que interferem
diretamente nos resultados da sua associação
com outras máquinas.
5.1 - Fatores que interferem na associação
da "máquina humana" à outras
máquinas. São fatores diversos que podem
estar ligados à cultura do indivíduo,
à regionalidade, à posição
social e a uma infinidade de aspectos. Esses fatores
são:
a) a cultura - durante a movimentação
de cargas alguns homens querem demonstrar força
maior do que realmente possuem;
b) a vaidade - as mulheres gostam de roupas que modelem
o corpo e quando os tecidos não são finos
limitam os movimentos;
c) o profissionalismo - algumas profissões exigem
vestimentas próprias, como sapatos altos e uniformes
incômodos;
d) o lazer - os finais de semana podem ser mais cansativos
que a semana de trabalho se procurarmos atividades de
real descanso;
e) os hábitos - dormir e assistir televisão
podem gerar dores fortes na coluna, promovendo alterações
diversas;
f) as características - o modo de dirigir, seja
nas posturas, seja nas atitudes adotadas no trânsito;
g) a atividade física - o atleta de final de
semana coloca em riscos seu sistema cardiovascular,
além de ser um freqüentador assíduo
do Setor Médico nas segundas-feiras;
h) o trabalho doméstico - o modo de varrer, as
posturas adotadas na lavagem das roupas e no cozinhar
podem ser complicadores sérios;
i) as dificuldades - há momentos na vida em que
o estresse é inevitável, em virtude da
"guinadas" inesperadas ou mesmo antes da tomada
de decisões importantes.
6 - CONCLUSÕES
A adequação do mobiliário, o reestudo
dos processos e a reorganização do trabalho
são por demais importantes na obtenção
de um trabalho menos sofrido, entretanto vale ressaltar
que os problemas provenientes das atitudes dos trabalhadores
são mais complicados quando tentamos compreender
o todo. As questões atitudinais são extremamente
fortes e, de modo geral, capazes de anular qualquer
ajuste ou adaptação realizada no mobiliário,
pois de que adiantaria uma cadeira ergonômica
se o usuário não senta adequadamente,
ou ainda, por quê estabelecer pausas de dez minutos
a cada cinqüenta minutos de trabalho se o trabalhador
não está preparado, física e/ou
psicologicamente, para resistir aos cinqüenta minutos
de atividade? Não podemos esquecer que a postura
é resultado da consciência corporal e que
o mobiliário deve ser visto como um agente facilitador
do processo postural. Bem sabemos que um mobiliário
inadequado atrapalha pode se transformar numa barreira
intransponível para o indivíduo, entretanto
temos que estar atentos ao modo de aplicação
desse mobiliário. Poderíamos traçar
um paralelo com a relação automóvel
x homem, ou seja: se colocarmos em um carro de fórmula
1 alguém que não saiba dirigir de nada
adiantará, por outro lado um carro antiquado
atenderia (com as devidas limitações)
um bom motorista. É preciso estabelecer processos
mais estruturados de educação, capacitando
o trabalhador na aplicação dos conceitos
de ergonomia na sua rotina de trabalho e lazer, pois
de nada adianta possuirmos os conhecimentos se os indivíduos
que sofrem os problemas têm pouco acesso a estes
conhecimentos de tanta utilidade.
LUÍS GUILHERME BARBOSA
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